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segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Audiência Pública em Vale Verde debateu o tema da aplicação de agrotóxicos por meio de avião agrícola

Por Maurício Queiroz*
A população do pequeno município de Vale Verde RS, localizado no Vale do Rio Pardo, está preocupada com o anúncio da instalação de uma empresa de aviação agrícola para pulverização aérea de agrotóxicos, trata-se da empresa Agrigel. Este foi o tema da audiência pública que envolveu mais de 90 participantes do município e da região.
Professor Jânio Weber coordenou a atividade e após uma introdução, convidou profissionais e lideranças para fazerem esclarecimentos e depoimentos sobre o tema. O Engº Agrº José Kroef Schmitz que é professor da Universidade Estadual o Rio Grande do Sul - UERGS e que também representou a Articulação em Agroecologia do Vale do Rio Pardo - AAVRP, iniciou dizendo “é  uma ocasião oportuna para discutirmos que tipo de desenvolvimento queremos para a nossa região”, explicou como são nocivos os agrotóxicos para a saúde, para o meio ambiente e também a classificação toxicológica. José disse que um agricultor ecologista de Santa Cruz do Sul já havia sido vítima de contaminação de seus cultivos por aviação agrícola e que isso é inadmissível, também citou o caso do município de Lucas do Rio Verde no Mato Grosso onde uma escola foi alvo de pulverização por avião agrícola levando inclusive algumas crianças a morte. Prof. José ainda disse “temos o direito à ter saúde e ao meio ambiente saudável”,terminou dizendo que a pulverização aérea de agrotóxicos é a pior prática, por que o veneno se espalha muito longe, a maior parte do veneno cai em outros locais e não no local planejado. Adriana Skamvestsakis, Médica do Trabalho, representando o CEREST/Vales (Centro de Referência em Saúde do Trabalhador) explicou os tipos de intoxicações causadas pela exposição dos trabalhadores e trabalhadoras aos agrotóxicos “não existe níveis seguros, qualquer tipo de exposição causa dano mais cedo ou mais tarde, com a manifestação de algum tipo de câncer por exemplo” “a aviação agrícola, no caso aplicar agrotóxicos de avião não é nada segura, já se sabe que contamina muito e não há como controlar”concluiu Adriana.
A vereadora, professora Cecília Niemeyer, disse que a audiência é fundamental para ouvir a sociedade num tema tão importante e preocupante como o da instalação desta empresa de aviação agrícola em Vale Verde e que a administração deveria antes de aprovar e apoiar tal projeto deveria ouvir a população local. A vereadora disse “a câmara de vereadores aprovou o projeto sem ouvir o povo, fui a única a ser contra por entender que instalar tal empresa na área urbana é muito prejudicial ao povo e que já existe várias reclamações de agricultores que tiveram seus cultivos contaminados por avião agrícola que passou sobre suas propriedades”.
Na seqüência o presidente do Conselho Agropecuário do município também se manifestou contrário a instalação da empresa, disse que agricultores foram prejudicados por tal prática, em seguida a coordenadora Diocesana da Pastoral da Terra, Oldi Helena Jantsch, que também falou em nome da Articulação da Agroecologia do Vale do Taquari - AAVT, disse que “nós trabalhamos com agricultores e agricultoras nos vales dos rios, Pardo e Taquari, agricultores estes que também são vitimas de intoxicações por agrotóxicos e que estão morrendo além da população em geral que sofre com isso” e finalizou dizendo “Deus não quer isso para nós, Deus quer que tenhamos vida e vida plena e que nós devemos ser contra a aplicação de agrotóxicos por avião, lutamos para que esta prática altamente prejudicial a vida seja proibida em todo o Brasil”concluiu dizendo “existe um outro caminho possível e viável, produzir alimentos saudáveis e ecológicos”.
Após os esclarecimentos e depoimentos houve espaço para manifestação dos participantes entre as manifestações mais marcantes foi a de uma professora que disse “é a nossa vida que está em jogo, não participamos dos lucros destas empresas, mas arcamos com os enormes prejuízos”
O jovem agricultor Junior Roberto Frei, 19 anos, disse que teve sua propriedade contaminada por um avião agrícola, perdeu uma lavoura de fumo além de ter também a horta familiar contaminada, horta que fica a 10 metros da residência, outro agricultor, o senhor Milton Daniel Souza, de Pagador Martel, interior de General Câmara - RS, também teve sua propriedade atingida com o veneno. Para Júnior disseram que era Roundup, mas ele não tem certeza disso, a certeza que tem é que é um veneno forte, pois matou a plantação.
Este é um relato pequeno de tanto debate que houve nesta manhã curta e com tantos outros depoimentos para serem dados, mas o tempo não permitiu. O Prefeito municipal esteve lá e tentou justificar dizendo que não entende de agricultura, mas que se os agrotóxicos forem bem aplicados, com os devidos cuidados ele acha que não é problema. Houve reações a sua fala. Me lembro que um dos professores disse assim “não estamos aqui para proibir o uso de veneno, o que estamos debatendo é a instalação desta empresa na cidade e os riscos de contaminação “, em resposta a alguém que estava tentando distorcer a conversa.
O que é importante destacar é que houve uma reação forte da sociedade local, professores e jovens estavam lá. Lamentável foi a ausência do Ministério Público e da FEPAM, que segundo Jânio, foram convidados e não vieram. 
O fato foi criado, despertou um grande debate local e regional, pois fato semelhante já havia acontecido em Santa Cruz do Sul meses antes com a mesma empresa que por pressão local não se instalou. A partir deste fato e de tantos outros, Brasil afora, reascendeu o debate sobre os enormes riscos do uso de agrotóxicos, especialmente da prática de aplicar veneno de avião, que é realmente uma afronta a vida. Fiquei pensando não seria o momento oportuno para voltar a trazer o tema da proibição da aplicação de agrotóxicos de avião? Que tal a Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, campanha desempenhada por dezenas de entidades em todo o Brasil, mexer novamente com o tema? E pensei mais, que tal realizarmos audiências públicas nos municípios do RS e de todo o Brasil sobre a temática dos Agrotóxicos e dos Transgênicos, mexendo com a população para ganharmos cada vez mais força?
Ao encerrar a audiência ficou encaminhado realizar no município um seminário sobre agroecologia e outro sobre a saúde do trabalhador.

*Maurício Queiroz é Técnico Agrícola e membro da Coordenação da Comissão Pastoral da Terra - CPT-RS

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Por que trabalhar com as Sementes Crioulas?

Por Maurício Queiroz*

Desde que iniciei no trabalho como técnico aqui na Diocese de Santa Cruz do Sul procuramos trabalhar aliando o trabalho técnico e também o trabalho pastoral da Pastoral da Terra. Hoje mais do que nunca estou convencido de que um trabalho somente técnico corre sério risco de não dar muitos frutos, se não tiver uma boa dose de mística e humanismo, que é aproximar as pessoas, trabalhar em grupo e isso conseguimos fazer muito bem. É um trabalho social, técnico, político, ambiental ao mesmo tempo e muito desafiador, com certeza.
O trabalho além de desafiador é amplo e abrangente, trabalhamos com agricultores familiares camponeses, quilombolas, indígenas, assentados, jovens. Mas em destaque está o trabalho com a juventude da roça e com as sementes crioulas.
O trabalho com sementes é algo especial, pois é ai que está as origens da agricultura, do pequeno agricultor e agricultora. Não dá para trabalhar agricultura orgânica ou ecológica sem abordar a temática das sementes crioulas que são a base da origem da nossa comida.
Isso significa mais autonomia, resgate cultural, religioso, místico. O tema das sementes está diretamente ligado ao tema da fome mundial, pois quando algumas multinacionais controlam as sementes nós (toda a sociedade)estamos reféns de um sistema que vai ditar o que devemos comer, determinam os preços, quem come e quem não tem acesso a comida, etc.
A nossa comida sagrada de cada dia, o “pão nosso de cada dia”, está fortemente ameaçado com a redução drástica das sementes crioulas, com a extinção das sementes crioulas está se extinguindo aquele e aquela que são os que produzem a nossa comida, o agricultor e a agricultora, o camponês com toda a sua diversidade no Brasil, na América Latina e no mundo todo.
Mas não está tudo perdido, este ano vamos realizar o 14º Encontro Diocesano de Sementes Crioulas, que graças a Deus está cada vez mais bonito e diversificado, e tem sido motivador de muitas experiências mundo a fora.
A produção de alimentos depende das Sementes Crioulas, e elas são a base da agroecologia, por isso motivamos comunidades, grupos de agriculores e agricultoras a trabalhar com sementes crioulas e agroecologia, voltando as origens.
BEM VINDOS E BEM VINDAS AO ENCONTRO DE SEMENTES
CRIOULAS!!!!
*Maurício Queiroz - técnico agrícola, agente de pastoral da CPT na Diocese de Santa Cruz do Sul, coordenação da EJR e membro da Coordenação da CPT-RS.
Clique AQUI para ver a programação do 14º Encontro Diocesano de Sementes Crioulas

terça-feira, 10 de junho de 2014

Escola de Jovens Rurais realizou etapa de formatura


A Escola de Jovens Rurais-EJR realizou sua etapa de conclusão do curso, com a formatura de 68 jovens vindos dos municípios de: Chuvisca, Amaral Ferrador, Dom Feliciano, Encruzilhada do Sul e Rio Pardo. A etapa aconteceu em Rio Pardo nos dias 30, 31/05 e 01/06/2014 e priorizou o tema “Os Passos para Organização de um Projeto”, além do planejamento e organização, bem como o compromisso de os jovens se manterem articulados e convidarem outros jovens para a nova turma que irá iniciar provavelmente no início de setembro. Ficou bem claro que a formatura não significou o fim, mas o início de uma grande luta e caminhada pela frente.
A Etapa contou com muita animação e a disposição da juventude na luta por um mundo melhor, mas justo e solidário. Os jovens assistiram ao filme “O Veneno Está na Mesa 2” que trás bem forte a realidade dos agrotóxicos no Brasil, os problemas de contaminação a que as pessoas estão expostas, sejam agricultores bem como consumidores, por que ambos são vítimas. Os jovens reforçaram o compromisso com a agroecologia.
O bispo diocesano Dom Canísio Klaus, fez uma visita aos jovens no sábado dia 31 e falou para os jovens das 11h até meio dia. Na sua fala o bispo reforçou o seu apoio a Escola de Jovens Rurais-EJR e repetiu palavras ditas pelo Papa Francisco, “Ide sem medo para servir” além de conversar com a juventude, Dom Canísio deu uma boa dica de como passar o inverno sem gripe, segundo ele 4 ingredientes são fundamentais usar todos os dias, limão, alho, cebola e mel. Abençoou os anéis de Tucum que cada jovem recebeu em sinal de compromisso com a causa da agroecologia, do meio ambiente e também social.
A formatura aconteceu no domingo com uma bonita missa presidida pelo padre Pedro Bernardo Rochenback, padre que há muitos anos é atuante na Comissão Pastoral da Terra e apoiador assíduo da Escola de Jovens Rurais-EJR. Durante a missa os jovens reforçaram o compromisso pelas causas ambientais, pela agroecologia, pelo trabalho em grupo, compromisso social e de continuar sempre na Rede da Escola de Jovens Rurais. Após a cerimônia, não poderia faltar o gostoso almoço servido aos jovens e aos familiares que vieram nesta ocasião tão especial.

“Sempre nos perguntam, muitas vezes agressivamente. Onde estão esses jovens? Dá algum resultado, onde estão os resultados? E nós sempre fizemos questão de responder que sempre vale a pena apostar na juventude! E que os resultados aos poucos vão aparecendo, basta dar chance e apoio aos jovens” – Maurício Queiroz –Téc.Agrícola e um dos coordenadores da EJR.

“68 Jovens realizando formatura na Escola de Jovens Rurais, com muita emoção e muita esperança junto com pais e avós. Fiquei muito, mas muito feliz mesmo com o maravilhoso grupo de jovens”- Oldi H.Jantsch uma das coordenadoras da EJR e coordenadora da Comissão Pastoral da Terra Diocesana.

"A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar." Eduardo Galeano

Contribuição de Maurício Queiroz - técnico agrícola, agente de pastoral da CPT na Diocese de Santa Cruz do Sul, coordenação da EJR e membro da Coordenação da CPT-RS

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Ocupação de Territórios no Rio Grande do Sul, um Desafio ao Diálogo

por: Maurício Queiroz e Simonne Pegoraro*
Nos dias 08 e 09 de maio, estiveram reunidos em Rio Pardo - RS, para momento de formação, mais de 20 lideranças e agentes da Pastoral da Terra (CPT), refletindo sobre "Ocupação dos Territórios", buscando compreender como se deu a ocupação das terras no Rio Grande do Sul. 
Assessorados por Jaques Alfonsin e Frei Sergio Görgen os participantes debateram, além da estrutura fundiária, a origem de desigualdades regionais no Estado, decorrentes da ocupação territorial e sociocultural, por conseguinte nas atividades econômicas nela estabelecidas. As populações envolvidas no processo de colonização e povoamento. A origem das pequenas propriedades rurais e as propriedades de grandes extensões territoriais. Além do processo de desigualdade econômica (e social) no Rio Grande do Sul, no qual a estrutura fundiária é tida como o elemento fundamental dessa diferença. 
Jaques Alfonsin aprofundou, com participantes, diversas questões relacionadas à legislação. Comentou sobre a violação de direitos, pois, nem sempre considerar o cumprimento da lei é fazer justiça, também há o reconhecimento de leis mas sem garantia de coloca-las em prática. Há uma inversão de valores. Existe uma normatividade aos direitos fundamentais, enquanto por outro lado há a superioridade das leis de mercado sobre o bem estar social, que introjeta a inferioridade em relação a si próprio e ao mundo. Nesse sentido a simples condição de pobreza e miséria daqueles que tem direito a Reforma Agrária, já constitui violação de direitos. O Estatuto da Terra, aprovado e regulamentado ainda antes da Constituição Federal, traz como condição principal e primordial a função social da propriedade, que é o uso da propriedade como garantidora de direitos fundamentais. A falta de vontade política e as conveniências e concessões são os principais motivos para a não concretização da Reforma Agrária.
Frei Sergio abordou a questão da ocupação do território no RS através de um apanhado histórico do importante processo da luta pela terra no Rio Grande do Sul, onde a estrutura latifundiária, ainda hoje, é o centro de uma disputa social, jurídica e política herdada do império português. Percorreu, com os participantes, toda história das capitanias hereditárias, sesmarias, das missões guaranis, grandes fazendas de monocultura de exportação, modernas empresas agropecuárias e o não respeito pelos povos indígenas que habitavam o estado quando algum povos foram exterminados quase que completamente, a chegada dos escravos negros e posteriormente a dos imigrantes europeus. O que fez com que nosso Estado apresente uma super concentração de terras de um lado e de outro, podemos dizer, uma super divisão.
Foi destacada a luta dos pobres pela sobrevivência, pela melhoria das condições de vida. Destacou- se os assentamentos como resposta econômica possível da Reforma Agrária e a pequena propriedade.
O território cria identidades locais e ambientais. E todos os povos, sejam indígenas, negros, ou pequenos agricultores, lutam por tradições, por sobrevivência e por perspectivas de futuro sem destruição de sua própria história e seus meios de vida. Discutir a questão da ocupação dos territórios levanta o desafio do diálogo, do respeito  e da construção da unidade política entre várias culturas e identidades camponesas para a luta comum pelo direito à existência e pelo direito à construção do futuro.
Destacamos, como participantes do encontro, a presença de indígenas, assentados, agricultores agroecológicos, quilombolas, trabalhadores urbanos, jovens agricultores, jovens da Escola de Jovens Rurais de Santa Cruz.

*Maurício Queiroz e Simonne Pegoraro são agentes de pastoral, membros da Coordenação da CPT-RS

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Encontro de Sementes Crioulas movimenta Cruzeiro do Sul

Por CPT Diocesana*
O 13º Encontro Diocesano de Sementes Crioulas movimentou o município de Cruzeiro do Sul e região nos dias 21 e 22 de agosto. O encontro que é promovido pela Comissão Pastoral da Terra, aconteceu em dois dias, sendo que o primeiro dia foi realizado atividades com estudantes das escolas municipais e estaduais de Cruzeiro do Sul reunindo mais de 830 alunos nos turnos da manhã, tarde e noite. Os estudantes tiveram a oportunidade de conhecer a diversidade de sementes crioulas e produtos produzidos por grupos de agricultores e índios de nossa Diocese. Além de aprenderem mais sobre meio ambiente e agroecologia.
O dia 22 de agosto foi o dia dos agricultores e agricultoras participarem do encontro que teve mais de 400 agricultores presentes, com destaque para a participação dos jovens. Vários grupos de várias regiões de nossa Diocese e de outras regiões do estado prestigiaram o evento, como foi o caso de um grupo de agricultores que veio da região do Médio Alto Uruguai, região norte do nosso estado, além de destacar que todos os jovens que estão cursando a Escola de Jovens Rurais participaram deste dia que foi o primeiro dia da 2ªEtapa de formação, em relação aos jovens destacamos também a presença do grupo de jovens da Escola Família Agrícola de Santa Cruz do Sul.
As Sementes Crioulas são Patrimônio dos Povos e devem estar nas mãos e a serviço destes povos, foi esta a síntese da assessoria da manhã, por Oldi Jantsch e professor José Schmitz. Destacamos ainda que o momento de espiritualidade e a encenação feita pelos estudantes da Escola Estadual de Ensino Médio São Miguel de Linha Sítio foi marcante, pois apontou vários motivos por que nosso mundo está tão destruído, como é o caso do egoísmo, individualismo etc. Na hora do almoço nosso bispo diocesano Dom Canísio Klaus abençoou as sementes crioulas, as bancas, todos os participantes e os alimentos.
Uma boa e animada música deu continuidade aos trabalhos na parte da tarde. Lícinio na gaita, Paulo com sua voz e Brietzke no bandonión animaram bastante e em seguida o cacique Kaingang Francisco tocou gaita e cantou músicas na língua tradicional do seu povo. Após houve relatos de experiências de agroecologia e sementes crioulas por grupos e participantes.
O encontro encerrou com a partilha das sementes crioulas trazidas pelos participantes, mesa esta recheada de biodiversidade, mas os participantes também puderam comprar sementes trazidas pelos grupos.
O 14ºEncontro Diocesano de Sementes Crioulas de 2014 será em Santa Cruz do Sul, com data e local a ser definido e o 15ºEncontro Diocesano de Sementes Crioulas em Progresso em 2015.

Comissão  Pastoral da Terra - CPT - Diocese de Santa Cruz do Sul

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Intercâmbio entre Bancos de Sementes Crioulas

Maurício, Oldi, Guilhermina e Cândida
Roça de cebola e amendoim.
por Maurício Queiroz*
Com apoio da Cáritas RS, nos dias 17 e 18 de novembro aconteceu o intercâmbio entre os Bancos de Sementes Crioulas em Erechim. Na verdade foi uma visita feita pelos Bancos de Sementes Crioulas de Santa Cruz do Sul e de Bagé, juntamente com representação da Cáritas Brasileira Regional do RS a fim de conhecer aquela experiência.
Participaram Banco de Sementes de Santa Cruz do Sul; Oldi Helena Jantsch, Maurício Queiroz e Cândida Taís Maders. Banco de Sementes Crioulas de Bagé: Tomás, Emerson Capelesso, Jean e Erni. Pela Cáritas RS Altair Pozzebon. Edson Klein do Banco de Sementes de Erechim fez um roteiro de visitas à 4 propriedades de agricultores e agricultoras envolvidos na produção de sementes crioulas, de um total de 15 famílias.
O depósito do Banco de Sementes
Crioulas é um casinha
coberta por terra para melhor
conservar as semente.
As visitas iniciaram na comunidade de Vaca Morta, município de Três Arroios, na propriedade da agricultora Zelinda. A família da Zelinda há quase 20 anos trabalha com agroecologia com assessoria do CETAP (Centro de Tecnologias Alternativas e Populares), dedicam-se a produção ecológica de hortaliças juntamente com mais 7 famílias que fazem feira semanal. Chamou nossa atenção nesta propriedade o pomar com laranjeiras, pereiras, macieiras, em sistema agroflorestal bem implantado, além do cultivo de sementes das seguintes hortaliças: salsa, linhaça, cenoura, rúcula e cebola. Para termos uma idéia a Zelinda produziu na última safra 60kg de sementes de rúcula. É nesta propriedade que está localizado o Banco de Sementes Crioulas, digamos assim a reserva das sementes que é guardado em uma pequena construção praticamente subterrânea, por que o Banco de Sementes Crioulas é desde as propriedades envolvidas.
A tardinha fomos visitar um casal de camponeses, o Agostinho e a Guilhermina, ele de origem Italiana e ela de origem Alemã que acabou se entretendo com a Oldi e a Cândida conversando na língua alemã que se orgulham em preservar. Caminhamos até a roça e vimos uma propriedade como poucos camponeses tem hoje, a diversidade de sementes crioulas que o casal produz é impressionante, embora a família ainda utilize adubos químicos e as vezes agrotóxicos caminha na direção da agroecologia. Já plantados, milho, feijão, mandioca, amendoim, arroz, batatinha, batata doce, abóbora, etc. Só de amendoim são sete variedades multicores. Depois das voltas na roça, fomos até o porão que é um verdadeiro celeiro onde guardam sementes e alimentos para o consumo e também para vender. Queijo molhado no vinho tinto e envelhecido e copa defumada era o aroma do porão. Este casal de agricultores tem soberania e segurança alimentar, não dependem de comprar comida, se orgulham em dizer que nunca compraram arroz e feijão para comer, sempre produziram.
No porão do agricultore Guilhermina e Agostinho
No dia seguinte visitamos Jandir e Carmen Deotti, na comunidade de Jubaú, município de Barra do Rio Azul. Jandir participou do 11ºEncontro Diocesano de Sementes Crioulas, em 15 de junho em Passo do Sobrado onde adquiriu algumas variedades, lá participaram de intercâmbio com o Banco de Sementes Crioulas de Santa Cruz do Sul. Jandir produz milhos das variedades, Pixurum, Cordilheira, Amarelão e um cruzamento que ha 20 anos vem realizando entre duas variedades, produzindo a própria semente. Caminhamos até a roça e trocamos idéias e experiências referentes aos cultivos. Jandir cuida muito bem para manter as variedades puras e é um dos agricultores que deseja trabalhar com agroecologia.
A última experiência que visitamos foi no agricultor Paulo Lunkes, no município de Aratiba. Paulo está iniciando o trabalho com agrofloresta onde cultiva citrus. Produz soja crioulo da variedade Santa Rosa Branco, produziu mais de 600kg de sementes de Ervilhaca Comum, utiliza adubação verde especialmente de inverno. Este agricultor neste ano está reduzindo pela metade o uso de adubos químicos, graças a um adubo orgânico que está misturando na hora do plantio o que é algo muito significativo.
Apesar do cansaço, foram dois dias inesquecíveis. Valeu o esforço do Edson e das famílias que com alegria contaram um pouco de suas histórias. Combinamos que dias 24 e 25 vamos visitar o Banco de Sementes Crioulas de Bagé.
*Maurício Queiroz é Técnico Agrícola, estudante de Biologia, agente da CPT na Diocese de Santa Cruz do Sul e membro da coordenação colegiada da CPT-RS.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Índios no Congresso Nacional da Cáritas Brasileira.

por Maurício Queiroz*
Tivemos a oportunidade de participar no dia 11/11/2011 no Congresso Nacional da Cáritas Brasileira, que aconteceu de 09 a 12/11 em Passo Fundo-RS. Havia mais de 350 participantes vindos de todo o Brasil. Quero dar destaque à participação dos índios das etnias Kaigang e Pataxó Hã Hã Hãe. Antônio Vicente é da etnia Kaigang aqui do RS e está na luta pelos direitos dos povos indígenas do RS e SC e Marilene conhecida por Iaranaú na sua língua, Iaranaú é da etnia Pataxó Hã-Hã-Hãe da Bahia, ela é irmã de Galdino Pataxó, que foi covardemente queimado vivo em Brasília no dia 20 de abril de 1997 quando dormia em uma calçada, os criminosos eram 5 jovens de família rica de Brasília. Iaranaú é da Coordenação das mulheres indígenas de sua aldeia, organização que recebeu o prêmio Odair Firmino de Solidariedade.
Fomos para o lançamento do vídeo “Sementes Crioulas: Cultivando a Biodiversidade Para as Futuras Gerações” produzido pela Cáritas Brasileira Regional do RS e pela Rede de Sementes Crioulas. O vídeo enfoca a importância das sementes crioulas, dos bancos de sementes crioulas e a necessidade de construção de um novo modelo de produção com base nos princípios ecológicos e nas sementes crioulas ao mesmo tempo que denuncia o modelo do agronegócio e das sementes transgênicas.
O congresso foi espaço de divulgação dos trabalhos com sementes crioulas desenvolvido em todo o Brasil, e claro, não podia faltar as sementes crioulas do Banco de Sementes Crioulas da CPT Diocese de Santa Cruz do Sul.
*Maurício Queiroz é Técnico Agrícola, estudante de Biologia, agente da CPT na Diocese de Santa Cruz do Sul e membro da coordenação colegiada da CPT-RS.

Os 10 alimentos mais contaminados por agrotóxicos

Cartilha da ANVISA
Um estudo da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) mostra que muitos dos alimentos que a população consome estão contaminados. “São ingredientes ativos com elevado grau de toxicidade aguda comprovada e que causam problemas neurológicos, reprodutivos, de desregulação hormonal e até câncer” segundo a ANVISA.
O Projeto de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em alimentos, realizado pela ANVISA em conjunto com os órgãos de vigilância de 25 estados participantes, mais o Distrito Federal, analisou diversos legumes, frutas e vegetais para ver a quantidade de contaminação.
Entre as amostragens analisadas, os alimentos que foram contaminados com uma freqüência maior foram:
1º-Pimentão 80,00%
2º-Uva 56,40%
3º-Pepino 54,80%
4º-Morango 50,80%
5º-Couve-Flor 44,20%
6º-Abacaxi 44,10%
7º-Mamão 38,80%
8º-Alface 38,40%
9º-Tomate 32,60%
10º-Beterraba 32,00%
Enviado por Maurício Queiroz, Técnico Agrícola, estudante de Biologia, agente da CPT na Diocese de Santa Cruz do Sul e membro da coordenação colegiada da CPT-RS.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Visita à experiências na Alemanha

Francisco, Maurício, Franziska e Oldi.
Ao fundo o Castelo de Ludvig II
Por Maurício Queiroz**
De 22 de julho até 19 de agosto de 2011 estive visitando a Alemanha, minha segunda viagem, a primeira ocorreu em janeiro de 2001. Junto comigo foi Oldi Jantsch, agricultora e agente da CPT na Diocese de Santa Cruz do Sul, Francisco Fritzen agricultor ecologista da CPT, Petronila Andrade liderança comunitária e Elcida Wietzke de Venâncio Aires que atua no trabalho pastoral. Após vários convites de amigos e amigas, finalmente conseguimos ir. Fomos com um propósito bem definido, participar de um seminário em Wernau sobre o intercâmbio de jovens entre as Dioceses de Santa Cruz do Sul e Rottenburg/Stuttgart e visitar os jovens que fizeram intercâmbio em nossa querida Escola de Jovens Rurais, muitos dos quais moraram na casa da Oldi Jantsch e participaram dia a dia do trabalho da Escola de Jovens Rurais e da CPT desde agosto de 2002, quase 10 anos de história de intercâmbio. Ficamos hospedados nas famílias dos jovens que estiveram em intercâmbio com a CPT e EJR.
A região onde tivemos é conhecida por Schwäbische Alb, onde se fala o Schwäbische, dialeto da região, com sotaque típico desta região e estávamos no estado de Baden-Wüthenberg e Stuttgart é a capital do estado.
Em visita ao agricultor que produz sementes ecológicas
de hortaliças e flores
Foi um tempo muito legal, conhecer as famílias dos jovens, rever amigos e amigas, conhecer um pouquinho da Alemanha e também da cultura. Visitamos locais turísticos como o Lago de Bodensee na divisa com a Áustria e bem perto da Suíça, Fabian* e Mathias* nos levaram e a cidade histórica de Rhotenburg que a família de Elisabeth Franz* fez questão de nos levar, cidade que preserva as construções do tempo da idade média. Franziska Mayer* nos levou para visitar imponente Castelo de Ludvig II e Simon Gmeiner* a uma cervejaria, entre tantas outras experiências legais. Além disso, também visitamos agricultores que produzem de forma ecológica, um dos meus principais objetivos.
Produção de leite ecológico na família de Jonas Notz*, na cidade de Leutkirch na região de Algäu, sul da Alemanha, nos Alpes. Ficamos na casa de Alfons e Marlise Notz, pais de Jonas, por 3 dias e acompanhamos todo o processo de produção que segue rigorosamente as normas da Biodinâmica idealizada por Rudolf Steiner. Para isso utilizam alimentação natural, o feno de vários tipos de pasto é utilizado no inverno e no verão as vacas são levadas ao pasto em piquetes bem planejados.
Jonas Notz conduz vacas para o estábulo
As vacas são tratadas com respeito, tanto é que todas elas têm chifres, não são inseminadas artificialmente ao contrário das vacas convencionais que são mochas e são inseminadas artificialmente. Também não são agredidas e recebem alimentação sem hormônios e só medicamentos homeopáticos.
Alfons e Marlise fazem parte dos pequenos agricultores da Alemanha que igual aos pequenos agricultores do Brasil e outras partes do mundo precisam lutar muito para sobreviverem. Importante é dizer que já são 30 anos de produção ecológica, leite este que vai para uma organização ecológica chamada Demeter e transformam em queijo, diga-se de passagem, muito saboroso. O leite é vendido a 50 centavos de euro (R$1,15) enquanto que o leite convencional (não ecológico)é vendido a 35 centavos de euro (R$0,80) e os custos são bem mais elevados.
Jonas faz questão de dizer que seus pais estão contentes com o que fazem e por isso são felizes. Ele também pensa em ser agricultor por isso faz um curso.
Também visitamos outras experiências como a produção de hortaliças ecológicas para a venda na feira livre que é muito difundida na Alemanha, produção de cabras para leite no mesmo sistema de produção da família do Jonas e visitamos um agricultor que produz sementes ecológicas, mais ou menos um agricultor que produz sementes crioulas.
Maurício visita a horta do Josef
Embora a agricultura ecológica cresça bastante na Alemanha e Europa em geral, o agronegócio também cresce e é como no mundo inteiro, grandes plantios, normalmente monoculturas como o milho que vimos na Alemanha que não será alimento e sim gás para produção de energia e também grandes estábulos com vacas confinadas o tempo todo, ganhando ração, hormônios, antibióticos e o leite é retirado por meio de um robô. É possível ver no semblante dos animais que são doentes e estão longe de serem animais felizes. Imagino que quem toma um leite desses, não se alimenta e sim se intoxica ou se envenena.
Por fim queria dizer que não troco viver no meu Brasil por viver em qualquer país da Europa. Nós temos o melhor clima do mundo, podemos produzir de tudo e o ano todo. Temos uma terra rica e diversificada e muitas horas de sol no ano importante para a agricultura e também para o aproveitamento da energia de diversas formas e temos muitas riquezas naturais, e a maior biodiversidade do mundo graças ao clima tropical que não tem na Europa. O Brasil precisa preservar as riquezas naturais e apoiar os camponeses e camponesas na produção de alimentos ecológicos.

*Jovens Alemães que realizaram intercâmbio na Comissão Pastoral Terra e Escola de Jovens Rurais, Dioc.deSanta Cruz do Sul.
**Maurício Queiroz* é Técnico Agrícola, estudante de Biologia, agente da CPT na Diocese de Santa Cruz do Sul e membro da coordenação colegiada da CPT-RS.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

CPT marca presença no encontro das CEB's da Diocese de Santa Cruz do Sul

Neste final de semana, 22 e 23 de outubro, a Diocese de Santa Cruz do Sul realizou seu 26º Encontro Diocesano das CEB's, tendo como tema a continuidade da Campanha da Fraternidade 2011, sobre as mudanças climáticas e a crise ecológica. Com o lema "Planeta Terra, nossa casa. Cuide-se!", o encontro ocorrido na comunidade católica São Roque de Tamanduá, paróquia de Bela Vista do Fão, município de Marques de Souza, foi palco de exposições, debates e oficinas sobre as questões ambientais. Frei Milton Backes, pároco da Paróquia Nossa Senhora de Lourdes do Fão e articulador diocesano das CEBs, coordenou o encontro juntamente com lideranças da comunidade local e da equipe diocesana de CEB's.
Maurício Queiroz da coordenação colegiada da CPT-RS e da Pastoral da Terra da Diocese de Santa Cruz, realizou uma oficina sobre agroecologia, um dos assuntos mais debatidos no encontro que reuniu majoritariamente pequenos agricultores. Pilato Pereira, da Pastoral da Ecologia, que também faz parte da colegiada da CPT-RS, foi que assessorou o encontro, trabalhando o tema da crise ambiental na lógica do método Ver-Julgar-Agir.
Leia a seguir a Carta do 26º Encontro das CEB's da Diocese de Santa Cruz


Carta do 26º Encontro Diocesano de CEB’s
Diocese de Santa Cruz do Sul
“Nosso Planeta, nossa casa. Cuide-se!”
Às margens do Arroio Tamanduá, na capital gaúcha dos campings, município de Marques de Souza, na centenária Comunidade São Roque, estacionou o trem das CEB’s e o povo reunido, sentindo o calor que lembra o efeito estufa, porém, no ânimo do Espírito de Deus, armou sua tenda para vivenciar o 26º Encontro Diocesano das Comunidades Eclesiais de Base da Diocese de Santa Cruz do Sul. Alegramos-nos com a presença de cada irmão e irmã e nos preocupamos, sim, com a dificuldade estrutural que muitas pessoas enfrentam para poder participar e tantos companheiros de caminhada que ficam impossibilitados de vir celebrar e conviver. Também foi motivo de especial alegria a presença fraterna de nossos irmãos da Igreja Luterana.
Todo o povo presente foi acolhido num ambiente de animação, mística e fraternidade, onde a comunidade local compartilhou sua história e realidade, mostrando que o rio da vida sofre ameaças e reclama, grita por socorro.
Ainda visíveis os sinais das catástrofes de 4 de janeiro de 2010, a comunidade se revigora e celebra sua esperança num novo jeito de ser igreja, povo de Deus, nestas terras marcadas pela herança histórica e messiânica dos seguidores de Jacobina.
Na lógica do método Ver-Julgar-Agir, refletimos sobre o cuidado com o nosso Planeta, nossa casa comum. Compreendemos que a Terra é um organismo vivo e somos parte desta vida, onde tudo está interligado. Estamos na Terra e ela está em nós e tudo o que fazemos contra a natureza, se reverte contra nós e ameaça nossa existência. Hoje temos clareza de que toda a criação geme em dores de parto (Rm, 8, 22), nossa mãe e irmã Terra, a profetiza do momento, que, junto com os pobres, clama por cuidados, respeito e solidariedade. Temos consciência da nossa vocação: somos jardineiros deste belo jardim de Deus, que é o Planeta Terra, onde tudo é sagrado. Mas, a realidade nos incomoda e alerta que é hora de fazer ecoar a profecia da Terra e dos pobres e gritarmos contra a degradação e a poluição das águas, a emissão excessiva de gases de efeito estufa na atmosfera e os despejos de venenos no solo. É hora de testemunhar nossa fé no Deus criador e defensor da Vida.
À luz da Palavra de Deus, com o olhar holístico voltado para a realidade, buscamos construir coletivamente, em forma de oficinas, algumas indicações de alternativas concretas para o nosso agir. Anunciamos que a agricultura familiar camponesa, através da agroecologia, tem a oportunidade de testemunhar que é possível produzir alimentos saudáveis, respeitando os direitos do trabalhador e da natureza; Conclamamos toda a Igreja a participar, envolvendo a sociedade, no cuidado das nossas bacias hidrográficas e na garantia da qualidade e universalidade do serviço público da água que é dom de Deus e direito de todos; Anunciamos que o testemunho do catador, profeta da ecologia, é garantia de que o material reciclável vai para o destino certo e se reverte em vida; Conclamamos que todos têm o direito a uma alimentação saudável em quantidade e qualidade; E reafirmamos que a visão bíblica ecumênica de ecologia nos ajuda a entender que temos uma aliança com Deus criador e defensor da vida, para promover a justiça e a paz com toda a criação.
Encerramos nosso encontro compartilhando sobre o II Sulão de Comunidades, realizado em Londrina, no Paraná e outras informações da caminhada das CEB’s e das pastorais. Juntamente com nosso bispo diocesano, Dom Canísio Klaus, celebramos nossos compromissos na entrega de uma muda de café, vinda do II Sulão, para cada comunidade que sai deste encontro no desafio de cultivar práticas de cuidado com a vida. E antes de partirmos para as nossas comunidades, deixamos uma árvore plantada na terra que nos acolheu e limpamos rio simbólico que ilustrou nosso encontro. Nosso desafio, agora, é recuperar e preservar a beleza salutar do rio da vida.
Tamanduá, 22 e 23 de outubro de 2011.


Os Participantes do 26º Encontro
Assista AQUI o clip "O mundo que eu quis": 
http://www.youtube.com/watch?v=doNHq0JiGv0

domingo, 18 de setembro de 2011

Diversificar propriedades e continuar dependentes?

Foto: Feira ecológica do grupo NAESC - Nucleo 
de Agricultores Ecologistas de Santa Cruz do Sul, 
Francisco Fritzen, agricultor ecologista da CPT.
Por Maurício Queiroz*
Atualmente se fala muito em diversificação da propriedade em nossa região e até pelo Brasil a fora. Concordo com a ideia de diversificar, mas com algumas observações que julgo importantes.
A agricultura desde sua origem foi diversificada. O camponês ou camponesa sempre fez policultura que é produção de vários tipos de alimentos em sua propriedade. Há 50 ou 60 anos deixaram de fazer policultura para adotar uma “agricultura moderna”, com monoculturas, venenos, sementes compradas de empresas, etc. De lá prá cá deixaram gradativamente de ser agricultores e passaram a ser produtores de produtos. Com isso foram ensinados a abandonarem a sabedoria e cultura milenar para serem agricultores “modernos”.
Atuo na região onde mais se planta fumo no mundo, a região de Santa Cruz do Sul, Rio Grande do Sul. Por aqui o discurso da diversificação da propriedade podemos dizer que virou moda. É discurso da indústria fumageira, de entidades sindicais, entidades que representam agricultores e também dos governos. Quem ouve pode até pensar que agora finalmente os agricultores vão melhorar. Mas eu estou preocupado, porque muitos agricultores estão “atolados”em dívidas e muitos fazem como no município de Amaral Ferrador, abandonam massivamente a roça para arriscar-se em qualquer outra coisa que não agricultura ou fazem como vários infelizmente fizeram na região, buscaram no suicídio uma saída.
Queria dizer que nos diferenciamos da “moda do discurso”por que quando falamos em diversificação nas propriedades estamos falando em agroecologia, em agricultura ecológica, pois não há agroecologia sem diversificação, sem policultura. Mas sobre tudo estamos falando em mudança de modelo de produção. Não admito a idéia que muitas vezes escuto por ai “diversificar a propriedade com fumo” “o fumo é um mal necessário”, ou seja, continua plantando fumo e plante mais alguma cultura, normalmente imposta como pacote de cima para baixo. Entendo perfeitamente que a mudança da noite para o dia não é possível, mas que isso não seja argumento para não fazer nada.
Quero que os agricultores participem do processo de discussão e construção de saídas e não que sejam meros espectadores. Quero que eles tenham o pleno direito de se arriscarem (como se arriscam quando abandonam a roça) a buscar alternativas, inclusive abandonar o plantio do fumo. Quero que os pequenos agricultores sejam respeitados. Nosso principal papel é encorajá-los e não amedrontá-los cada vez mais, como se tudo estivesse perdido e não há nada mais a fazer.
A meu ver a produção ecológica de alimentos é o caminho para os pequenos agricultores brasileiros. E isso significa organização em grupos ou movimento para ter mais voz e força. É autonomia e não dependência. É ter casa digna para morar e o sagrado direito a terra e água. É a relação direta com os trabalhadores da cidade através das feiras livres que proporciona à ambos um espaço rico de diálogo e trocas de experiências.
O que descrevi hoje é utopia, mas como diz Dom Pedro Casaldáliga “sem utopia não há crescimento”, é algo que perfeitamente podemos alcançar. Agricultores e agricultoras podem contar conosco!!!

*Maurício Queiroz é Técnico Agrícola do projeto social da Diocese de Santa Cruz do Sul e atuante na Pastoral da Terra (CPT) e dedicado ao trabalho de agroecologia.