quarta-feira, 30 de julho de 2014

Gaza: “Eles também são nossos filhos”

Uma declaração assinada por 48 ganhadores do Right Livelihood Award, conhecido como Prêmio Nobel Alternativo, de 32 países, condena a matança de civis, muitos deles, crianças. Três desses ganhadores do Prêmio vivem e trabalham na zona de conflito. A CPT, ganhadora do prêmio em 1991, também assina o documento. Veja a declaração na íntegra:

Como ganhadores do Right Livelihood Award, popularmente conhecido como ‘Prêmio Nobel Alternativo’, nós condenamos energicamente a matança de centenas de crianças e civis inocentes, executada em Gaza pelo exército israelense, além do indiscriminado lançamento de mísseis por parte do Hamas sobre civis de Israel, ao mesmo tempo em que lamentamos o contínuo sofrimento dos habitantes de Gaza. 

Gaza enfrenta o desabastecimento de água e eletricidade, de hospitais, médicos e médicas, ao mesmo tempo que bombas e balas matam e ferem a sociedade civil, assim como aos trabalhadores da saúde, em uma espiral de violência e desesperança. Aproximadamente 24% de todos que perderam suas vidas em gaza, como resultado dos bombardeios de Israel e seus militares, são crianças.  

Contudo, a responsabilidade por essas mortes não é somente um produto conjunto e múltiplo dos soldados de Israel, dos lutadores do Hamas e de seus governos. Outros governos também são responsáveis, tanto direto como indiretamente, através da transferência de armas, assessoria militar e de seu silêncio.   

Estes países e as Nações Unidas parecem não ter aprendido com o passado. Tanto que quanto mais cresce a violência em Gaza, mais as negociações de paz se movem a um ritmo incrivelmente lento, dificultadas por interesses particulares de países que não sofrem derramamento de sangue por este conflito. O diálogo e as negociações não podem ser  substituídas pelo uso da força militar. A vingança só produz vingança, e o derramamento de sangue só produz mais derramamento de sangue.

Não podemos esquecer as recentes imagens de cadernos de escola destroçados nas ruas de Gaza e as vidas destroçadas das crianças que os usavam. Seus corpos sem vida esparramados em volta de seus caderno, que nunca voltarão a ser usados novamente, descrevem a trágica pintura de uma crueldade sem limite. Ninguém tem o direito de acabar com essas vidas e, tampouco, ameaçar a vida daquelas crianças que seguem sobrevivendo. Eles também são nossos filhos.

Neste contexto, nós apoiamos com força o extraordinário trabalho, a determinação e a perseverança – em meio a explosão das bombas – do nosso colega Raji Sourani (RLA 2013, Palestina) e seus colegas do Centro Palestino de Direitos Humanos em Gaza, que estão denunciando a matança de civis inocentes e a continuidade de uma guerra suja não declarada, que vai contra os princípios da legislação humanitária internacional. Nós também queremos expressar  nossa profunda admiração pelo trabalho de organizações de paz de Israel, como Gush Shalom (RLA 2001) e o incrível trabalho de toda a equipe médica que atua atualmente em Gaza, com representantes de nossos amigos do Médicos para os Direitos Humanos (RLA 2010), que seguem  carregando os princípios de humanidade acima de tudo, apesar de expostos às desumanas máquinas de guerra.

Como ganhadores do Right Livelihood Award, nós instamos as Nações Unidas, a União Europeia e as organizações regionais como a Liga Árabe e a Organização dos Estados Americanos (OEA), além de países de todo o mundo, a unir suas vozes, condenando estas inaceitáveis violações de direitos humanos, e requerendo um imediato cessar fogo, a suspenção do bloqueio a Gaza, bem como novas negociações de paz. E, da mesma forma, que parem com todas as ações que perpetuam esse conflito, que dificultam uma resolução pacífica e que parem de prover com armas as partes em conflito. Se nós não atuarmos com urgência, mais crianças e pessoas inocentes vão ser assassinadas nos próximos dias, nas próximas horas, nos próximos minutos, nos próximos segundos.



Assinam: 
• Dr. Ibrahim Abouleish, Fundador de SEKEM, Egipto (RLA 2003)
• Swami Agnivesh, India (RLA 2004)
• Dr. Martin Almada, Paraguay (RLA 2002)
• Uri Avnery, Fundador de Gush Shalom, Israel (RLA 2001)
• Dipal Barua, Ex director de Grameen Shakti, actualmente en Bright Green Energy Foundation, Bangladesh (RLA 2007)
• Nnimmo Bassey, Health of Mother Earth Foundation, Nigeria (RLA 2010)
• Andras Biro, Hungría (RLA 2005)
• Citizens’ Coalition for Economic Justice, Corea del Sur (RLA 2003)
• Dr. Tony Clarke, Director Ejecutivo de Polaris Institute, Canadá (RLA 2005)
• Comissão Pastoral da Terra (CPT), Brasil (RLA 1991)
• Prof. Dr. Anwar Fazal, Director del Right Livelihood College, Malasia (RLA 1982)
• Prof. Dr. Johan Galtung, Noruega (RLA 1987)
• Dr. Juan E. Garcés, España (RLA 1999)
• Dr. Inge Genefke, Dinamarca (RLA 1988)
• Gush Shalom, Israel (RLA 2001)
• Dr. Monika Hauser, Fundadora de Medica Mondiale, Alemania (RLA 2008)
• Dr. Hans Herren, Fundador de Biovision Foundation, Suiza (RLA 2013)
• Dr. SM Mohamed Idris, Sahabat Alam Malaysia (RLA 1988), Consumers Association of Penang and the Third World Network, Malasia
• Obispo Erwin Kräutler, Brasil (RLA 2010)
• Dr. Katarina Kruhonja, Center for Peace, Nonviolence and Human Rights-Osijek, Croacia (RLA 1998)
• Birsel Lemke, Turquía (RLA 2000)
• Helen Mack Chang, Fundación Myrna Mack, Guatemala (RLA 1992)
• Dr. Ruchama Marton, Fundador y Presidente de Physicians for Human Rights, Israel (RLA 2010)
• Prof Dr. h.c. (mult.) Manfred Max-Neef, Director del Instituto de Economía de la Universidad Austral de Chile, Chile (RLA 1983)
• Prof. Dr. Raúl A. Montenegro, Presidente de la Fundación para la defensa del ambiente, Argentina (RLA 2004)
• Frances Moore Lappé, Cofundadora de Small Planet Institute, Estados Unidos (RLA 1987)
• Jacqueline Moudeina, Chad (RLA 2011)
• Helena Norberg-Hodge, Fundadora y Directora de International Society for Ecology & Culture, United Kingdom (RLA 1986)
• Juan Pablo Orrego, Presidente de Ecosistemas, Chile (RLA 1998)
• Medha Patkar, Narmada Bachao Andolan, India (RLA 1991)
• P K Ravindran, Kerala Sastra Sahitya Parishad, India (RLA 1996)
• Fernando Rendón, Cofundador y Director del Festival Internacional de Poesía de Medellín, Colombia (RLA 2006)
• Dra. Sima Samar, Directora de la Afghanistan Independent Human Rights Commission, Afganistán (RLA 2012)
• Dra. Vandana Shiva, Naydanya, India (RLA 1993)
• Prof. Michael Succow, Fundador de Michael Succow Foundation for Nature Conservation, Alemania, (RLA 1997)
• Suciwati, viuda de Munir, KontraS, Indonesia (RLA 2000)
• Dr. Hanumappa Sudarshan, Karuna Trust & VGKK, India (RLA 1994)
• The Kvinna Till Kvinna Foundation, Suecia (RLA 2002)
• Shrikrishna Upadhyay, Director Ejecutivo, Support Activities for Poor Producers of Nepal, Nepal (RLA 2010)
• Prof. Dr. Theo van Boven, Holanda (RLA 1985)
• Martín von Hildebrand, Fundador y Director de Fundación GAIA Amazonas, Colombia (RLA 1999)
• Dr. Paul F. Walker, Director de Environmental Security and Sustainability, Green Cross International, Estados Unidos (RLA 2013)
• Alyn Ware, Coordinador Global de Parliamentarians for Nuclear Nonproliferation and Disarmament, Nueva Zelanda/Suiza (RLA 2009)
• Chico Whitaker Ferreira, Brasil (RLA 2006)
• Alla Yaroshinskaya, Rusia (RLA 1992)
• Angie Zelter, Trident Ploughshares, Reino Unido (RLA 2001)
• Ina May Gaskin, Estados Unidos (RLA 2011)
• Movimento dos trabalhadores rurais sem terra-MST - BRASIL (RLA  1991)

segunda-feira, 28 de julho de 2014

14º Encontro Diocesano de Sementes Crioulas

14º Encontro Diocesano de Sementes Crioulas
Data: 27/08/2014
Local: Salão Paroquial de Linha Santa Cruz - Santa Cruz do Sul/RS
Objetivo: Reunir agricultores e agricultoras visando fortalecer a agricultura camponesa e familiar a partir do resgate das sementes crioulas e da promoção da agroecologia. Reunir os Bancos de Sementes Crioulas e demais experiências com sementes crioulas no RS.
Público Alvo: Agricultores e agricultoras, mulheres e jovens da roça.
Programação:
8h – Chegada e inscrições.
8h45min – Acolhida aos participantes.
9h – Momento de espiritualidade.
9h30min – Painel das Experiências com Sementes Crioulas no RS.
11h30min – Debates e questionamentos acerca do tema.
12h – Almoço.
13h as 14h – Momento cultural e visualização das experiências expostas por grupos de agricultores e agricultoras. Intercâmbio.
15:00 h – Compromissos concretos e encaminhamentos acerca do tema das sementes crioulas.
15h30min – Intercâmbio e Troca de Sementes Crioulas entre os grupos participantes.
16h-Avaliação e encerramento.
Maiores informações:
e-mail penaterra@ibest.com.br ou
fone 051-91466134/91242466
Organização: Comissão Pastoral da Terra Diocese de Santa Cruz
Apoio: 


CPT no Seminário Internacional de Soberania e Segurança Alimentar e Sementes Crioulas

O texto que segue é a exposição de Maurício Queiroz, da Coordenação da CPT-RS, no Seminário Internacional de Soberania e Segurança Alimentar e Sementes Crioulas ou “Plenária Internacional sobre Produção, Circulação e Comercialização dos Alimentos numa perspectiva Ética, Solidária, Ecológica e Sustentável no cuidado da Vida no Planeta Terra, com o Solo, a Água, as Sementes e o Consumo Solidário”, organizado pela Cáritas no dia 19/07/2014, durante a 21ª FEICOOP - Feira Internacional do Cooperativismo, que ocorreu entre os dias 18 a 20 de julho de 2014, no Centro de Referência de Economia Solidária Dom Ivo Lorscheiter, em Santa Maria - RS - Brasil.

As Sementes e o Problema da Fome Mundial
Quem pensa que a temática das sementes crioulas não tem nada a ver com o problema da fome mundial está muito enganado, pois tem tudo a ver sim. O problema que envolve a extinção das sementes crioulas é diretamente proporcional ao problema da fome no planeta.
Todos sabemos que dos 7 bilhões de habitantes do planeta, cerca de 1bilhão passa fome, fome de não ter o que comer. Sabemos também que nunca se produziu tanto “alimento” como na atualidade (ou seja produz-se “alimentos” para 12bilhões), o problema está na má distribuição deste “alimento”. Resumindo, se passa fome por não ter dinheiro para comprar o alimento, por que o “alimento” virou mercadoria no mundo capitalista.
Só para lembrar: respirar oxigênio, beber água, alimentar-se e ter onde morar dignamente são direitos humanos inalienáveis, inegáveis. Não podem ser vendidos, são inerentes a vida!
A outra fome, uma fome mais moderna e que também preocupa muito é a fome de comida, verdadeiramente comida. As pessoas estão de barriga cheia, mas não alimentadas, por isso estão doentes. Isso por que, se come mercadoria e não comida verdadeiramente.

Onde entram as Sementes Crioulas?
As Sementes Crioulas são a base da produção dos alimentos do planeta, a partir delas é possível produzir comida, verdadeiramente comida. Acontece que estas sementes crioulas, estão em um drástico processo de extinção há décadas, da mesma forma que estão sofrendo um processo de extinção e exclusão terrível os camponeses e camponesas que são os verdadeiros donos e guardiões destas sementes, se os pequenos agricultores desaparecerem adeus sementes crioulas.  Adeus possibilidades de termos alimentos próximos de nós e de qualidade.
As empresas controlam a comida, controlando as sementes, o exemplo mais claro, a multinacional americana Monsanto detém mais de 70% do controle das sementes de milho do planeta. Em resumo, as empresas que controlam as sementes controlam a comida. Ficaremos comendo produtos de mercado, puro veneno, transgênicos e pagando o preço que eles querem. É a nossa vida que está em jogo.
Fortalecer a agricultura camponesa, com homens, mulheres e jovens através de uma Reforma Agrária que é capaz de Repartir o Chão para Multiplicar o Pão, é o caminho, com agroecologia e sementes crioulas, resgate da cultura e dos alimentos tradicionais e regionais.
Mas o povo está reagindo! Um exemplo concreto é os Bancos de Sementes Crioulas, Casas de Sementes, Sementes da Paixão, etc. Com o objetivo de fortalecer estas iniciativas em 2010 e 2011 a Cáritas- RS disponibilizou recursos proporcionando o intercâmbio e aproximação destas experiências. Com isso se criou a Rede Latino Americana de Sementes Crioulas, que é uma articulação on-line destas experiências, intercambiando suas experiências se fortalecendo mutuamente.
A CPT Diocesana vai realizar no dia 27 de agosto de 2014, o 14º Encontro Diocesano de Sementes Crioulas em Santa Cruz do Sul e vai priorizar a reunião de todas estas experiências durante o encontro.
Te esperamos no Encontro de Sementes Crioulas!
Abraços.
Maurício Queiroz

Mais notícias de todos os eventos da 21ª FEICOOP nos sites:
esperancacooesperanca.org.br
rs.caritas.org.br

Por que trabalhar com as Sementes Crioulas?

Por Maurício Queiroz*

Desde que iniciei no trabalho como técnico aqui na Diocese de Santa Cruz do Sul procuramos trabalhar aliando o trabalho técnico e também o trabalho pastoral da Pastoral da Terra. Hoje mais do que nunca estou convencido de que um trabalho somente técnico corre sério risco de não dar muitos frutos, se não tiver uma boa dose de mística e humanismo, que é aproximar as pessoas, trabalhar em grupo e isso conseguimos fazer muito bem. É um trabalho social, técnico, político, ambiental ao mesmo tempo e muito desafiador, com certeza.
O trabalho além de desafiador é amplo e abrangente, trabalhamos com agricultores familiares camponeses, quilombolas, indígenas, assentados, jovens. Mas em destaque está o trabalho com a juventude da roça e com as sementes crioulas.
O trabalho com sementes é algo especial, pois é ai que está as origens da agricultura, do pequeno agricultor e agricultora. Não dá para trabalhar agricultura orgânica ou ecológica sem abordar a temática das sementes crioulas que são a base da origem da nossa comida.
Isso significa mais autonomia, resgate cultural, religioso, místico. O tema das sementes está diretamente ligado ao tema da fome mundial, pois quando algumas multinacionais controlam as sementes nós (toda a sociedade)estamos reféns de um sistema que vai ditar o que devemos comer, determinam os preços, quem come e quem não tem acesso a comida, etc.
A nossa comida sagrada de cada dia, o “pão nosso de cada dia”, está fortemente ameaçado com a redução drástica das sementes crioulas, com a extinção das sementes crioulas está se extinguindo aquele e aquela que são os que produzem a nossa comida, o agricultor e a agricultora, o camponês com toda a sua diversidade no Brasil, na América Latina e no mundo todo.
Mas não está tudo perdido, este ano vamos realizar o 14º Encontro Diocesano de Sementes Crioulas, que graças a Deus está cada vez mais bonito e diversificado, e tem sido motivador de muitas experiências mundo a fora.
A produção de alimentos depende das Sementes Crioulas, e elas são a base da agroecologia, por isso motivamos comunidades, grupos de agriculores e agricultoras a trabalhar com sementes crioulas e agroecologia, voltando as origens.
BEM VINDOS E BEM VINDAS AO ENCONTRO DE SEMENTES
CRIOULAS!!!!
*Maurício Queiroz - técnico agrícola, agente de pastoral da CPT na Diocese de Santa Cruz do Sul, coordenação da EJR e membro da Coordenação da CPT-RS.
Clique AQUI para ver a programação do 14º Encontro Diocesano de Sementes Crioulas

terça-feira, 1 de julho de 2014

III Encontro Nacional de Agroecologia

“Cuidar da Terra, Alimentar a Saúde e Cultivar o Futuro”. Com este lema, o III Encontro Nacional de Agroecologia (ENA) reuniu-se entre os dias 16 e 19 de maio de 2014 na cidade de Juazeiro-BA. Com o público de mais de 2.100 pessoas vindas de todos os estados brasileiros, fizeram-se representar trabalhadores e trabalhadoras do campo, portadores de diferentes identidades socioculturais (agricultores familiares, camponeses, extrativistas, indígenas, quilombolas, pescadores artesanais, ribeirinhos, faxinalenses, agricultores urbanos, geraizeiros, sertanejos, vazanteiros, quebradeiras de côco, catingueiros, criadores de fundos em pasto, seringueiros) , técnicos, pesquisadores, professores, extensionistas e estudantes, além de gestores convidados. Com a presença majoritária de trabalhadores e trabalhadoras rurais, nosso encontro alcançou participação paritária entre homens e mulheres, contando também com expressiva participação das juventudes.

Clique AQUI para ler a Carta Politica do III ENA, no site: www.enagroecologia.org.br

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Dia da Agricultora e do Agricultor Familiar

Seguem os textos do subsídio especial da CPT/RS para o 25 de Julho de 2014 - Dia da Agricultora e do Agricultor, trabalhadoras e trabalhadores da agricultura familiar e camponesa. Além dos textos de reflexão e formação, também está publicada neste blog a proposta de liturgia para orientar as celebrações alusivas à esta data. A publicação do Dia 25 de Julho pode ser solicitada em pdf e impressa para a coordenação da CPT/RS pelo telefone (51) 3344.4415 ou pelo e-mail: cptrs@portoweb.com.br. O subsídio também está disponível neste link: http://migre.me/kbuIr

Celebrar o dia do agricultor e da agricultora, que cultivam a terra, é celebrar a Mãe Terra e os mais de 70% dos alimentos do povo brasileiro que vem da agricultura familiar.
Neste ano de 2014, queremos: Denunciar o sistema de desenvolvimento baseado no acúmulo, que gera exclusão e miséria. E, Anunciar que a luta pela Reforma Agrária é uma luta por vida e de que é possível Viver Bem, onde a natureza é preservada, há a partilha e solidariedade.
Nessa luta a agricultura familiar tem um papel socioeconômico, ambiental e cultural importantíssimo. Assim a ONU declarou 2014 o Ano Internacional da Agricultura Familiar com objetivo de aumentar a visibilidade dessa agricultura e dos pequenos agricultores, colocando-a no centro das políticas agrícolas, ambientais e sociais nas agendas nacionais e internacionais, em busca de um desenvolvimento mais equitativo e equilibrado.
Ao celebrarmos o Dia do Agricultor e da Agricultora celebramos a Agricultura Familiar Camponesa, mais do que um sonho de projeto, mas como uma realidade para que a vida continue acontecendo no planeta.
Que este subsídio nos fortaleça e encoraje a sermos esperança de Vida na garantia dos direitos humanos e na promoção da Agricultura Familiar Camponesa.

Agricultores familiares: alimentar o mundo, cuidar do planeta.
A Agricultura Familiar Camponesa nos traz a mística de cultivar a terra revelando uma forma de viver e cuidar da terra e do planeta, além de cuidar a vida, produzindo alimentos saudáveis para o povo. A agricultura familiar é reconhecida como um modo de vida que contribui para a transmissão entre gerações do conhecimento, a preservação dos recursos naturais e da herança cultural. Sendo de produção diversificada, está intimamente vinculada à segurança alimentar mundial. Tanto em países desenvolvidos quanto em países em desenvolvimento, a agricultura familiar é a forma predominante de agricultura no setor de produção de alimentos.
A agricultura familiar camponesa motiva o debate sobre o modelo de produção. Há estimativas que 30% da base, no setor produtivo, já produz de maneira agroecológica. É preciso discutir com a sociedade o modelo de campo, respeitando a biodiversidade. Por isso a Agricultura Familiar desempenha, hoje, um importante papel na erradicação da fome, contribuindo para a provisão da segurança alimentar e nutricional, melhoria dos meios de subsistência, gestão dos recursos naturais, proteção do meio ambiente e para o desenvolvimento sustentável, particularmente nas áreas rurais.
O modelo do agronegócio está inviável. O impacto no ambiente e na saúde é grande. Diante disso, o discurso de que o agronegócio é o modelo responsável por alimentar o país e empregar a força de trabalho cai por terra quando se olha os dados do meio rural brasileiro. Segundo o censo rural do IBGE, a maior parte da produção para alimentação do povo brasileiro (70%) e emprego dos trabalhadores está na agricultura familiar, mesmo esta tendo menos crédito e poucas terras. O agronegócio, por sua vez, concentra terras, recebe mais créditos e produz apenas 30% do que é consumido pela população. O resto da produção, é exportado.
Investir para aprimorar a produtividade agrícola, preservar o meio ambiente, produzir alimentos saudáveis e nutritivos, além de motivar o engajamento de jovens e mulheres, devem ser prioridades para a garantia da Agricultura Familiar Camponesa.

Agricultura Familiar – Desafios
Embora A Agricultura Familiar seja a maior produtora de alimentos para os brasileiros, ela enfrenta diversos desafios:
1. Os agricultores sentem-se, muitas vezes, abandonados e empobrecidos. A atenção à saúde precária, difícil acesso à educação, falta de estradas e transportes que facilitem a comercialização de seus produtos, empurram grande parte das famílias, sobretudo os mais jovens a buscar melhores condições na cidade. E os que ficam veem sua identidade camponesa se diluir.
2. A pressão do agronegócio acaba expulsando milhares de famílias a cada ano de suas terras, com isso mantendo o êxodo rural. Na última década, mais dois milhões de pessoas abandonaram o campo. Os que resistem, sofrem por causa do endividamento e envenenamento pelos agrotóxicos. Grande parte das famílias veem seus filhos buscarem melhores condições de vida na cidade.
3. Os agricultores integrados que se tornam reféns de grandes indústrias.As dificuldades começam na hora dos contratos nos quais as indústrias impõem as regras da produção e definem, unilateralmente, os preços dos produtos.Para abastecer o mercado interno e poder exportar grande quantidade, as indústrias forçam os produtores a aumentar a produção, obrigando-os a jornadas exaustivas de trabalho, sem direito a sábados, domingos e feriados.Os agricultores entram com a terra, a infraestrutura e a força de trabalho, e as empresas com a matéria prima e ficam com toda a produção. O agricultor torna-se, assim, um prestador de serviços para a indústria, sem carteira assinada e sem direitos trabalhistas. Para evitar reclamações trabalhistas as indústrias forçam os pequenos produtores a se constituírem como empresas.
4. Os interesses das indústrias levam, também, os agricultores a ampliar suas instalações e a se especializar em apenas um tipo de atividade no processo de produção, cortando, assim, a pouca autonomia que o produtor teria ao tomar conta do ciclo completo da produção. O valor pago pelo produto, muitas vezes, não chega a cobrir os custos de produção. Pensando que estão tendo lucro, os agricultores integrados sofrem, na verdade, um empobrecimento crescente.
5. Outro grito do campo vem dos que acabam subjugados pelas grandes empresas de sementes que, com os mais eficazes meios de propaganda, convencem os agricultores a utilizarem sementes transgênicas que subordinam o agricultor ao controle das empresas às quais ele tem que pagar pelas variedades transgênicas criadas. O agricultor perde o controle sobre as sementes naturais, chamadas de tradicionais ou “crioulas”, quanto às sementes que os agricultores vieram melhorando, ao longo de séculos, adaptando as diversas espécies cultivadas às mais distintas condições ambientas e sociais. São milhares de variedades tradicionais de milho, feijão, arroz etc. que os transgênicos substituem, fazendo com que se perca a rica diversidade existente. Tudo isso impulsiona as grandes monoculturas que utilizam poucas variedades da mesma espécie. Estas culturas são facilmente suscetíveis ao ataque de pragas e doenças com grandes riscos para a produção: aumenta, assim, a demandas por agrotóxicos perigosos para o meio ambiente e para a saúde humana e animal e o agricultor fica ainda mais dependente das empresas que, além das sementes transgênicas, produzem, também, os agrotóxicos necessários.
6. Povos indígenas, Quilombolas, assentados, ribeirinhos, sem terra... Os agricultores familiares não sentem o Estado presente e atuante pela sua causa. Exemplo típico são os recursos destinados ao Agronegócio, infinitamente superior aos que são destinados a Agricultura Familiar.
7. Muitas são as formas de resistência contra a exploração que pesa sobre os agricultores familiares. A bandeira dos pequenos agricultores é levantada e defendida, de maneira especial, pelo Movimento dos Pequenos Agricultores, nascido em 1996 e que, ao lado de outros movimentos, se propõe a resgatar a identidade e a cultura camponesa, com suas diversidades regionais, a incentivar uma produção agroecológica e diversificada, a valorizar e multiplicar as sementes crioulas e a produzir comida saudável, abundante e barata para o autosustento e a alimentação dos próprios camponeses e das populações urbanas. A Via Campesina junto com outras entidades está desenvolvendo, em nível nacional, a “Campanha contra os Agrotóxicos. e pela vida”, livre de agrotóxicos e transgênicos.

Agricultura Familiar - Sinais de Esperança
Um ditado popular muito conhecido diz “a esperança é a última que morre”. Quando um agricultor(a) perde a esperança perde quase tudo, para não dizer tudo, pois a esperança é o que nos mantém vivos e apesar dos problemas. É preciso manter viva a esperança que nos mantém vivos e com coragem de enfrentar os desafios do dia-a-dia. Mas esperança do verbo esperançar como já nos ensinava o educador Paulo Freire, não é esperança de ficar esperando, mas é esperança esperançosa de lutar.
Eis alguns sinais de esperança que nos animam a continuar na roça:
1- A produção de arroz orgânico nos assentamentos – Quem participou da 37ª Romaria da Terra, em Tapes, pode levar para sua casa 1 kg de arroz orgânico produzido por famílias do
Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra- MST dos assentamentos da região metropolitana de Porto Alegre, onde são produzidos mais de 300 mil sacos de arroz orgânico. Este gesto foi uma demonstração prática de que vale a pena lutar pela terra e pela permanência na terra. A Romaria da Terra mostrou que a Reforma Agrária é uma das melhores alternativas para nosso país e um sinal forte de esperança. A Reforma Agrária é um forte sinal de esperança, pois, proporciona aos agricultores, acesso à terra para viver com dignidade.
2- A alimentação que vem da agricultura familiar camponesa – Vivemos num dos países mais desiguais do planeta, em que a diferença entre os mais pobres e os mais ricos é um abismo sem igual. Esta desigualdade se revela na agricultura, quando vemos que a maior parte das terras está nas mãos de fazendeiros e de empresas transnacionais, e também no acesso a recursos públicos. Mas mesmo assim, com toda esta desigualdade, a agricultura familiar camponesa da conta da maior parte da produção de alimentos que os brasileiros consomem diariamente. É um forte sinal de esperança, pois, sem os agricultores familiares não há produção de alimentos.
O Programa de Aquisição de Alimentos da Agricultura Familiar, (PAA) é um dos programas mais importantes que permite que o governo compre alimentos diretamente desses agricultores e possa beneficiar diretamente famílias em situação de vulnerabilidade social. Alimentação Escolar, existe uma lei que obriga que a merenda escolar adquirida com recursos do FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação) seja no mínimo 30% oriunda da agricultura familiar e que a prioridade seja adquirir dos agricultores do município. Esse percentual poderá chegar a 100%.
3- Agrobiodiversidade das Sementes Crioulas e Agroecologia – As sementes caseiras, tradicionais, comuns conhecidas por sementes crioulas, quase desapareceu, mas graças ao trabalho de recuperação junto aos agricultores feito pela Comissão Pastoral da Terra e vários movimentos sociais, estas sementes foram recuperadas. Esta é uma das grandes vitórias da luta dos últimos anos, pois, se hoje é possível voltar a produzir alimentos ecológicos é por que existem sementes crioulas, que são a base da produção de alimentos. Este trabalho permite feiras ecológicas mais diversificadas e os agricultores voltam à suas raízes, com mais autonomia e dignidade.
4- Formação e informação – Só o trabalho não basta é preciso estudo e aperfeiçoamento. A luta não é só na lavoura é também dentro da nossa cabeça, entender a realidade, a conjuntura para não ficarmos perdidos e alienados no mundo. Saber ler e escrever é um direito que muitos agricultores brasileiros não tiveram. Saber ler o mundo e saber ler no papel – a grande maioria dos agricultores camponeses do nosso país sabe muito bem ler a realidade, mas ajudaria ainda mais se soubessem ler e escrever.
No município de Dom Feliciano- RS existe um projeto de alfabetização de adultos, e é muito gratificante ver que agricultores de mais de 60 anos aprenderam ler e escrever, algo imprescindível nos dias de hoje.Capacitação de jovens nos eixos: Agroecologia, Pastoral e Político é o que a Escola de Jovens Rurais da Diocese de Santa Cruz do Sul faz para que jovens da roça se organizem em grupos de produção ecológica e lutem pelos seus direitos.
Encontro de Comunidades Tradicionais realizado em 9 de novembro de 2013 no Quilombo Rincão dos Negros, Rio Pardo(RS), envolvendo Remanescentes de Quilombos e Indígenas organizado pela CPT-RS com apoio da Cáritas. É um sinal de esperança na organização do povo pelo respeito à cultura dos povos e pela demarcação das terras que lhes é de direito. (Maurício Queiroz)
Ano Internacional da Agricultura Familiar
O Ano Internacional da Agricultura Familiar (AIAF) 2014 tem o objetivo do AIAF 2014 que é de reposicionar a agricultura familiar no centro das políticas agrícolas, ambientais e sociais nas agendas nacionais, identificando lacunas e oportunidades para promover uma mudança rumo a um desenvolvimento mais equitativo e equilibrado.
O AIAF 2014 vai promover uma ampla discussão e cooperação no âmbito nacional, regional e global para aumentar a conscientização e entendimento dos desafios que os pequenos agricultores enfrentam e ajudar a identificar maneiras eficientes de apoiar os agricultores familiares.

Alguns números da Agricultura Familiar no mundo: Existem mais de 500 milhões de propriedades agrícolas familiares. Elas representam mais de 98% das explorações agrícolas. Essas terras são responsáveis por, pelo menos, 56% da produção agrícola em 56% da terra. Médias regionais: Ásia: 85%; África: 64%%; América do Norte e Central 83%; Europa: 68%; América do Sul, 18%.

Clique AQUI para acessar a Celebração do Dia da Agricultora e do Agricultor