quarta-feira, 29 de abril de 2015

É chegada a hora, um novo jeito de pescar brota da vida do povo

 Por Andrei Thomaz Oss-Emer*

“Jesus andava à beira do mar da Galiléia, quando viu dois irmãos: Simão, também chamado Pedro, e seu irmão André. Estavam jogando a rede no mar, pois eram pescadores.  Jesus disse para eles: ‘Sigam-me, e eu farei de vocês pescadores de homens’.  Eles deixaram imediatamente as redes, e seguiram a Jesus. Indo mais adiante, Jesus viu outros dois irmãos: Tiago e João, filhos de Zebedeu. Estavam na barca com seu pai Zebedeu, consertando as redes. E Jesus os chamou. Eles deixaram imediatamente a barca e o pai, e seguiram a Jesus.” (Mt 4, 18-21).

Carinhosamente chamada de “Mar de Dentro”, a Laguna dos Patos é uma porção de águas do sul do estado do Rio Grande do Sul. “Mar de Dentro” é uma maneira carinhosa que se encontrou para nomear esse mar, às vezes doce das águas dos rios que nele desaguam, às vezes salgado, da água do oceano que entra quando os níveis dos rios são baixos, e trazem consigo a fartura de peixes (como a tainha), do camarão, do siri e de tantas outras espécies. Semelhantemente à galileia ali habitam povos que sobrevivem da pesca extrativista, são gente trabalhadora, gente que não tem medo de enfrentar os perigos do mar, são rostos que às vezes me recordam André e Pedro, Tiago e João. São rostos sofridos, marcados pela dor da vida, muitos já cansados das ilusões, que apesar dos mais de dois mil anos que os separam, são tão semelhantes às dores do povo do Mar da Galiléia. Ali, na beira do Mar de Dentro, existe um povoado, que já não é tão pequeno quanto o povoado de Cafarnaum, ali já habitam por volta de 5 mil habitantes, a maioria pescadores, outros tantos comerciantes. Um povo trabalhador e sofredor, que há três anos vê suas redes voltarem vazias da pesca, pois a lagoa já não “salga” no tempo certo, e não há pesca. As espécies que povoam a lagoa são as provenientes do oceano, nos tempos em que a água salgada entra. Na água doce, a maioria das espécies já estão ameaçadas de extinção, haja visto que todo o esgoto da capital do Estado, Porto Alegre, bem como de sua região metropolitana, e da maior parte do estado desaguam na Lagoa matando milhares de peixes e animais aquáticos. Para muitos deles, hoje já não se vê peixe morto, porque a maioria já morreu pela poluição. As fazendas produtoras de arroz, ao secarem seus campos, fazem com que a água, com altos níveis de agrotóxico continue matando milhares de animais que outrora eram parte do ecossistema da Lagoa.

Ali, na colônia Z3, pertencente ao município de Pelotas, no Estado do Rio Grande do Sul, existe um povo, parcela do povo de Deus. Que acredita que um novo projeto popular pode dar certo, esse povo, apesar de amar o mar e suas dificuldades, entende que é preciso pescar diferente, é preciso estabelecer nova forma de viver em comunidade, a partir da dignidade humana, promovendo vida em abundância. Esse povo, que vive oprimido, na beira da lagoa, entre a água e um latifúndio de mais de 8.300 hectares, herança das sesmarias, parte de uma estrutura fundiária arcaica de manutenção do poder capitalista. Motivados pela esperança em dias melhores, esse povo ocupou tal latifúndio, a fazenda Santana, para que aquela fazenda fosse um assentamento da reforma agrária popular. O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra colaborou na primeira ocupação, desde então a luta tem sido constante, o acampamento já precisou mudar de lugar quatro vezes em menos de um ano, e o processo de desapropriação das terras parece cada vez mais demorado.

Cada vez que um pescador lanceia a rede e esta volta vazia, pois não há mais peixe na lagoa, percebe-se a dor daqueles que não têm sequer o básico para sobreviver. A esperança pela Terra Prometida não se apaga, apesar de que muitas das famílias que ali estão ainda não compreendem a desapropriação da fazenda como uma luta justa, em favor da dignidade humana. O poder religioso está fortemente vinculado com as proprietárias do latifúndio, e o legitima, o que faz com que as famílias Sem Terra, sintam que nem Deus está do seu lado. A criação de peixe em cativeiro, e a reprodução de espécies em tanques para o repovoamento da lagoa parece ser a melhor alternativa, mas o apoio não passa de palavras. Apesar de não haver mais pesca na lagoa, os pescadores não acreditam que a fazenda pode ser desapropriada. A negociação entre o Incra e as proprietárias não parece ser tranquila e muitas vezes o povo cansa de lutar.

Ainda assim é necessário pescar, é necessário arriscar mesmo não tendo certeza de que se trará o fruto do trabalho, é necessário avançar para as águas profundas, apesar da pesca parecer custosa. É necessário também ter a coragem de denunciar o sistema que oprime o povo e desune a classe trabalhadora. O Capitalismo, com toda a sua perversidade, continua convencendo nosso povo de que o melhor é esperar que a Tainha venha, de onde já não vem. É urgente e necessário anunciar uma nova sociedade, que só será construída quando não houver mais o latifúndio que explora a vida do povo. É urgente anunciar que um projeto de reforma agrária popular é necessário, também para o povo do mar. Esse acampamento, o primeiro de pescadores e pescadoras da história do MST, é sinal de vida, é sinal de esperança. Lutemos e apoiemos juntos essa causa, por Terra para todos e todas, por vida na Lagoa, por vida para o povo!

*Acadêmico em Filosofia pela Universidade Federal de Pelotas, agente da Juventude Cáritas de ação Social, e apoiador da Comissão Pastoral da Terra.


quarta-feira, 15 de abril de 2015

CARTA À COMISSÃO DE CONSTITUIÇÃO E JUSTIÇA DO RS

A Comissão Pastoral da Terra, CPT – RS, vem através desta demonstrar seu repúdio e preocupação a PL 31/2015 proposta pelo deputado Elton Weber, que tenta subtrair direitos das comunidades quilombolas limitando os territórios quilombolas de acordo com os interesses de diversos públicos tidos como produtores rurais, rescaldando o projeto já arquivado por ser considerado inconstitucional.
Quilombolas e indígenas são hoje um dos muitos rostos do campesinato gaúcho e devem ter seus direitos assegurados.
Não há inseguranças no campo quando os pequenos se juntam na luta pela garantia de direitos e pela vida digna que deve sim ser assegurada pelo Governo.
E o que vemos é cada dia mais crescerem gestos de discriminação e de desrespeito a esses povos, que deveriam ser reconhecidos e respeitados em sua dignidade.
O Caderno de Conflitos no Campo Brasil 2014, lançado ontem, dá conta de que a violência ano campo no Estado do Rio Grande do Sul vem crescendo e acreditamos que PLs como a proposta acabam por incentivar esse quadro.
Quando a vida é ameaçada precisamos nos posicionar ao seu lado.
Precisamos reconhecer nos povos indígenas e quilombolas a nossa história e nossa origem. É preciso respeita- los.
Quem se diz defensor dos direitos humanos e não defende os povos indígenas e quilombolas do Brasil não é um defensor.
Prevê o Artigo 68 do Ato das Disposições Transitórias da Constituição Federal: “Aos remanescentes das comunidades dos quilombos que estejam ocupando suas terras é reconhecida a propriedade definitiva, devendo o Estado emitirlhes os títulos respectivos”.
Ainda de acordo com a Constituição Federal vigente, Artigo 231, os povos indígenas detêm o direito originário e o usufruto exclusivo sobre as terras que tradicionalmente ocupam.
Assim, estamos convictos de que esta Comissão cumprirá mais uma vez o seu papel de guardiã da Constituição Federal, garantindo Direitos Fundamentais às minorias com o fim de que se tenha uma sociedade mais justa e igualitária e votará pela inconstitucionalidade do PL 31/2015 apresentado pelo nobre deputado.
Porto Alegre, 14 de abril de 2015.
Comissão Pastoral da Terra – CPT/ RS

sábado, 21 de março de 2015

Assembleia da CPT elege nova coordenação executiva e direção nacional

Reunidos no Centro de Formação Vicente Cañas, em Luziânia, Goiás, entre os dias 17 e 19 de março, cerca de 75 pessoas entre agentes da CPT, trabalhadores e trabalhadoras, escolheram a nova diretoria nacional e coordenação executiva nacional da CPT, para os próximos três anos.
Dom Enemésio Lazzaris, bispo de Balsas, no Maranhão foi reeleito como presidente da Comissão Pastoral da Terra (CPT). Dom André de Witte, bispo de Ruy Barbosa, na Bahia, foi eleito como vice-presidente. Os dois bispos irão compor a direção nacional da CPT. Jeane Bellini, agente histórica da CPT nos regionais Araguaia/Tocantins e Mato Grosso, atualmente contribuindo no Centro de Documentação Dom Tomás Balduino, da Secretaria Nacional da CPT; Ruben Siqueira, agente da CPT Bahia e um dos coordenadores, nos últimos dez anos, do Projeto São Francisco Vivo; Paulo César Moreira, agente da CPT no Mato Grosso e Thiago Valentim, agente da CPT no Ceará, ambos jovens e atuantes na luta da CPT, foram os eleitos e eleita para a coordenação executiva nacional da CPT. Para a suplência foram eleitas duas agentes da CPT, Isabel Cristina Diniz, da CPT Paraná e Darlene Braga, da CPT Acre.


Carta Final e Moções aprovadas pela Assembleia
A Assembleia aprovou, também, sua Carta Final (segue abaixo) e duas moções (em anexo), uma de apoio ao povo Palestino, que será levada por Dom Enemésio em um Encontro em Jerusalém, organizado pela Pax Christi Internacional, e uma endereçada ao Supremo Tribunal Federal (STF), em vista do julgamento pela Corte da Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 3239, referente ao Decreto 4887/2003. O decreto foi promulgado pelo ex-presidente Lula e tem por objetivo regulamentar a identificação e titulação dos territórios tradicionalmente ocupados por remanescentes de quilombos. A ADI foi protocolado pelo DEM e questiona a constitucionalidade desse Decreto. A CPT espera que o STF decida em favor dos povos quilombolas e de seus direitos sobre os territórios que ocupam.


 CARTA FINAL DA XXVII ASSEMBLEIA NACIONAL DA CPT
Faz escuro, mas eu canto: memória, rebeldia e esperança

Reunidos/as em assembleia confirmamos nossa caminhada de Pastoral da Terra. Animados/as pela organização do IV Congresso da CPT em julho de 2015, reconhecemos a noite dos tempos difíceis que vivemos e celebramos a madrugada camponesa no compromisso radical de 40 anos com as lutas dos povos da terra.

“Nenhuma família sem casa! Nenhum camponês sem terra! Nenhum trabalhador sem direitos!”(Papa Francisco).

Faz escuro, companheirada!
a bancada ruralista, o agro e hidronegócio, as mineradoras, madeireiras, os grandes projetos do capital, o trabalho escravo, o judiciário criminalizador, as empresas de veneno e transgênico, o Legislativo que constantemente ameaçam  reduzir direitos  já conquistados, os governos e suas polícias, as mídias golpistas e os setores conservadores do país fazem a noite demorada, obscurecem a democracia na negação de direitos dos povos da terra e da cidade. Não querem permitir que a luz apareça!

Faz escuro, companheirada!
os direitos já fragilizados dos povos indígenas, quilombolas, assentados e acampados, pescadores, ribeirinhos, vazanteiros, seringueiros, extrativistas, fundo e fechos de pasto, posseiros e camponeses são esmagados pelos interesses de um modelo de desenvolvimento que devora terras, territórios, tradições e modos de vida distorcendo a lei a seu dispor, cooptando e corrompendo processos e lideranças, usando a força e até assassinatos. Sofrem a juventude, as mulheres e crianças das comunidades. É uma noite escura e de medo: fica difícil de andar na escuridão. Querem os povos parados no escuro do medo. 

Faz escuro, companheirada!
conquistas importantes acenderam luzes nos últimos anos fruto da luta no voto e nas lutas nas bases. Essas luzes prometiam a claridade de acesso aos direitos de terra, pão, trabalho e casa, saúde e dignidade. Mas o direito e o poder de “acender e apagar” continuou fora das nossas mãos. As reformas necessárias não vieram! Nem reforma agrária! Nem reforma urbana! Nem reforma política. Nem reforma do marco regulatório da mídia! Os governos negociam e negam nossas conquistas para contentar as elites e impedem que programas e políticas acendam os caminhos da igualdade e da dignidade.

Faz escuro, companheirada!
em nome de Deus setores das igrejas cristãs apóiam políticos, governos e polícias que criminalizam a luta pela água, pela terra e na terra e abençoam o latifúndio e a privatização da natureza... querem apagar a luz do evangelho subversivo de Jesus vivo na vida dos pobres, homens e mulheres lutadoras do campo e da cidade. Querem fazer virar mercadoria o pão e a água da vida. Querem apagar as luzes das religiões de outras matrizes, altares de terreiros e rituais de torés. Faz escuro e silêncio na longa noite da religião do patriarcalismo, individualismo e consumismo.

Faz escuro companheirada!
Às vezes dentro de nós. Tantos desafios que não fomos capazes de enfrentar. Tantas novas relações entre nós que ainda não aprendemos a cuidar, conviver.

...faz escuro MAS eu canto! cantamos porque a manhã vai chegar!
estendemos  a mão mesmo no escuro e  vamos ao encontro de quem está do nosso lado. Aprendemos a ver no escuro! Somos nós companheirada na rebeldia necessária de forçar o dia. Nos reconhecemos como comunidades de iguais: novas formas de ser igreja no meio do povo, na luz de mártires da caminhada: Cristo vivo ressuscitado na humana solidariedade e no amor pelo mundo e seus viventes.Haja luz!(Gênesis 1, 3)

cantamos a luta e a esperança  no trabalho de base, na educação popular, na espiritualidade, nas diversas experiências da agricultura agroecológica, na formação permanente, na celebração dos saberes de ervas medicinais e valorização das sementes nativas e crioulas; com estas práticas adiantamos o dia,  iluminamos nosso cotidiano... ninguém acende uma luz pra ficar escondida!(Lucas 8, 16)

somos parte das ocupações de terra, denunciamos empresas e políticos, documentamos os conflitos e fazemos memória ativa das violências. Junto de nós nessa madrugada de rebeldia nos encontramos com os povos indígenas e quilombolas, assentados e acampados, pescadores, ribeirinhos, vazanteiros, extrativistas, fundo e fechos de pasto, posseiros, nas lutas pelos territórios e contra o avanço do capitalismo no campo. A luz brilha nas trevas!(João 1, 5)

confirmamos na tradição de profetas que vieram antes de nós na luta radical contra o capitalismo no campo nas formas do trabalho escravo, latifúndio e o agronegócio e afirmamos a luta pela reforma agrária e um projeto camponês para agricultura brasileira, condições necessárias para a soberania alimentar, a defesa e vivência da natureza e a saúde de todos/as no campo e na cidade... O povo que andava em trevas viu grande luz! (Isaías 9, 2)

sonhamos com a sociedade do bem viver e do conviver rumo a Terra sem Males. Nós somos o povo da esperança, o povo da Páscoa. O outro mundo possível somos nós! A outra Igreja possível somos nós!(Pedro Casaldáliga).

convocamos todos e todas companheiros/as, parentes e amigos/as da CPT e da luta pela terra e na terra a caminhar conosco rumo ao IV Congresso fazendo memória, vivendo a rebeldia e antecipando a esperança.

Já é quase tempo de amor.Colho um sol que arde no chão,
lavro a luz dentro da cana,minha alma no seu pendão.
Madrugada camponesa.Faz escuro (já nem tanto),
vale a pena trabalhar.
Faz escuro mas eu cantoporque amanhã vai chegar.
(Thiago de Mello)

XXVII Assembleia Nacional da CPT

Luziânia, 19 de março de 2015.

Gostou dessa informação?
Quer contribuir para que o trabalho da CPT e a luta dos povos do campo, das águas e das florestas continue? 

domingo, 15 de março de 2015

A CPT retoma sua caminhada quarentenal

Frei Luciano Bernardi, da coordenação executiva nacional, analisa os 40 anos da CPT numa perspectiva de retomá-los e revivê-los em nossa XXVII Assembleia Nacional, que será realizada na próxima semana, entre os dias 17 e 19, na cidade de Luziânia (GO). Na ocasião será escolhida a nova coordenação da CPT pata os próximos três anos.

"Na próxima semana estaremos retomando o caminho dos 40 anos da CPT, também no mínimo das instituições que ela se deu para ser democrática, igualitária e fraternal. Mudaremos a Coordenação Nacional Executiva, daremos os retoques na construção do IV Congresso Nacional em Porto Velho (RO) e voltaremos a nos redobrar sobre a formação e a sustentabilidade pastoral e financeira desta nossa querida pastoral missionária.

Em tempos de fortes perplexidades, olhando para o nosso país e para dentro da CPT.

Com a certeza de que a bandeira da memória, esperança e rebeldia profética ainda não caiu de nossas mãos. Ou será que caiu?  Desde que iniciamos a construção de nosso IV Congresso, as atitudes que mais se escutam, entre nós, são estas:

precisamos “escutar novamente os pobres: só isso pode salvar a CPT de um “naufrágio fatal”;

precisamos “reconstruir um consenso mínimo entre nós”  

precisamos ter “uma postura unitária, que não significa uniforme, de nossas opções fundamentais.

Entre outras....

De uma fonte ecumênica, impressionou-me uma inspiração recente. Sobre “Romero. Santo para todo o povo de Deus. Discurso de Rowan Williams, arcebispo emérito de Canterbury, anglicano”, publicado na IHU: D. Romero foi “evento teológico”. Segundo ele, “um evento teológico é um evento no qual se assiste a uma espécie de reaproximação entre a Palavra de Deus e a palavra, ou talvez o grito sem palavras, do sofrimento". E continua o arcebisbo emérito de Canterbury: "Como é sabido, o moto episcopal de D. Romero era: ‘Sentire cum Ecclesia’, pensar ou sentir com a Igreja. Uma frase que às vezes foi usada de maneira superficial para confirmar qualquer coisa que a Igreja diga através de seus expoentes. Significava, ao invés, algo muito diverso para o arcebispo Romero, Sentire cum Ecclesia é pensar, da e com a perspectiva dos deserdados. Pensar a partir de onde está Jesus. Para dizê-lo com James Alison, prestigioso intelectual católico contemporâneo, é aprender a ter a inteligência da vítima. Aprender a ver e a ler o mundo do ponto de vista daqueles que não têm poder, porque esta é a perspectiva de Cristo".

Foi um dos seus amigos e colaboradores, o grande teólogo jesuíta Jon Sobrino, que definiu Romero “um evento teológico”. O que significa dizer da vida e da morte de alguém, ou mesmo de sua personalidade inteira, que esta constitui um “evento teológico”? Sobrino no-lo explica. Um evento teológico é um evento no qual se assiste a uma espécie de reaproximação entre a Palavra de Deus e a palavra, ou talvez o grito sem palavras, do sofrimento. A teologia, tão longe de ser uma especulação humana sobre Deus, chega ao seu mais alto nível de autenticidade quando se torna num certo sentido verdadeira expressão de Deus. Não a expressão de Deus que vem do alto, como muitos teólogos e bispos gostariam que fosse, mas a palavra de Deus que se exprime com e através de quem compartilha do sofrimento de Jesus e de sua glória.

Sobrino escreve: “O grito de um povo inteiro foi transformado pelo bispo Romero numa prece oferecida a Deus”. E, ao escutar e dar voz a este grito, na presença de Deus, Romero se torna um evento teológico: a Palavra de Deus e o grito de quem sofre estão ligados. (...) Romero acreditava que a parte mais importante de seu ministério consistisse precisamente em dar voz àqueles que não têm voz. Mas, naturalmente o seu dar voz ao clamor dos pobres era algo mais do que uma simples questão de palavras. Ele deu voz à experiência dos pobres correndo os seus mesmos riscos. Uma vez mais, como no caso de Jesus, tornar próprio o grito dos sofredores se torna isso mesmo risco e motivo de sofrimento. (...) 

Descendo agora no meio dos meus pensamentinhos, terra, terra... sinto que, com o único objetivo de reavivar nossa  perspectiva de compromisso cristão para a vida  de leigos(as), religiosas(os) e presbíteros, bispos..., este nosso ano de 2015 deveria se colocar nesta trilha! É a trilha de São Oscar Romero, pastor e mártir.

Sem nenhum triunfalismo, mas com a responsabilidade que nos deixaram em herança nossos pais e mães fundadores e fundadoras, os quarentões da CPT, podem afirmar que temos, ao redor de Oscar Romero que papa Francisco proclamará santo “qui serus tamen = ainda que tardio”, uma densa nuvem de “testemunhas fiéis” aos quais solicitarmos luzes de inspiração de atitudes pessoais e de metodologia evangélicas. Alguns deles ainda vivem e nos sussurram dicas preciosíssimas, molhadas de suor e sangue...

Junto com Oscar Romero e todos/as os/as mártires, podemos afirmar que este momento da CPT é o momento de reconhecer que seus mártires e a própria CPT em si, constituem-se, eles próprios, num “evento teológico” no qual as humanidades no meio das quais vivemos, existimos e nos apelam “a uma espécie de reaproximação entre a Palavra de Deus e a palavra, ou talvez o grito sem palavras, do sofrimento humano e do nosso planeta Terra.

Bastem, entre todos e todas, a memória de Dorothy Stang e de Josimo Tavares....entre tantos e tantas que povoam nossa curta mas densa história.

Nossos mártires não resolverão, provavelmente, a tão anelada sustentabilidade financeira da CPT; esta, com seus “aplicativos” mais arrojados não poderão jamais substituir a força do testemunho do amor feito eficaz porque, teologicamente, pobre com os pobres que, padecendo injustiça, não aceitam pactuar ilusões, mas tão somente uma confiança recíproca e uma solicitação de partilha que poderá ser exigida  em nome da cidadania, na sociedade, para os camponeses e camponesas e, na igreja, para seus missionários e missionárias. Sem jamais pactuar com ilusões do sistema que nega a ambos porque seus objetivos não admitem horizontes de colegialidade, autonomia e protagonismo, alternatividade... todas “flores pequenas” que vicejam e perfumam por baixo, o bosque evangélico de Carlos Mesters.

Bom reinício dos trabalhos da CPT em 2015. Que venham um Conselho Nacional e uma Coordenação Nacional que nos incentivem nas trilhas de Oscar Romero, Dorothy Stang e Josimo Tavares, Ezequiel Ramin...".

Luciano Bernardi, com seus botões...

Salvador da Bahia, 12 de março 2015.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Site de Centro norte-americano destaca personalidades que lutam contra a escravidão contemporânea no mundo

O Centro Nacional de Liberdade Underground Railroad acaba de lançar o site www.tipawards.org, em que pessoas que travam significativas batalhas ao redor do mundo contra a escravidão contemporânea são destacadas com perfis contendo a descrição de sua atuação. O frei Xavier Plassat, da CPT, é um deles.

(Com informações de Freedom Center)

O Centro Nacional de Liberdade Underground Railroad é um museu de 150.000 metros quadrados em Cincinnati, OH, Estados Unidos, cuja missão é contar a história de abolicionistas, de pessoas que lutam pelo fim da escravidão no mundo. O museu inicialmente se dedicou aos abolicionistas que lutaram contra a escravidão em 1800, nos Estados Unidos, e deu continuidade com essa tradição, contando as histórias de abolicionistas de hoje. O Centro acredita que o site pode ser uma ferramenta que ajude a manter o foco sobre as pessoas que trabalham ao redor do mundo em questões de escravidão contemporânea.

Há quatro anos o frei Xavier Plassat, coordenador da Campanha Nacional da CPT de Combate ao Trabalho Escravo foi premiado pelo Departamento de Estado norte-americano com o chamado prêmio do Relatório TIP “Herói agindo para acabar com a escravidão moderna”. Plassat, portanto, também tem uma página com um perfil narrando sua trajetória, entre os heróis destacados no site. Para acessar o perfil de frei Xavier, clique aqui.

Segundo representante do Centro, “muitos desses heróis acabam sendo esquecidos pelo público pouco tempo depois de ganhar o prêmio. Queremos mudar isso, fornecendo um recurso que é continuamente atualizado com posts de blogs, artigos, vídeos,webinars, todos que se dedicam aos Heróis, destacando o seu trabalho e ajudando a ligá-los ao público e entre si”.

Mais sobre o site

Fornecendo biografias aprofundadas, uma série de recursos que podem ser filtrados por foco, país e região, o site oferece, ainda, um blog que é atualizado semanalmente com fotos e histórias que se relacionam diretamente aos Heróis do Relatório Tráfico de Pessoas. O site é uma ferramenta educativa valiosa para todos os interessados na abolição da escravidão na atualidade.

As pessoas que ganharam este prêmio são alguns dos melhores ativistas anti-escravidão que lutam pela liberdade no mundo todo. Atingindo todas as áreas do globo, e lutando contra todo o tipo de escravidão ou prática análoga à escravidão, estes Heróis servem de inspiração para todos os que desejam lutar pela liberdade.

Gostou dessa informação?
Quer contribuir para que o trabalho da CPT e a luta dos povos do campo, das águas e das florestas continue? 
Clique aqui e veja como contribuir 

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

A CPT completa 40 anos


Ao lembrarmos os 40 anos da CPT, trazemos à memória fatos e datas que não podem ser esquecidos.

Há 40 anos, em 1975:
• Foi morto pela Ditadura Civil-Militar, em São Paulo, no dia 25 de outubro, o jor­nalista Vladimir Herzog. Sua morte gerou fortes reações que marcaram o início do desmoronamento do regime militar.

Há 35 anos, em 1980, foram martirizados:
• No dia 24 de março, Dom Oscar Ranulfo Romero, arcebispo de San Salvador, El Salvador;
• No dia 29 de maio, Raimundo Ferreira Lima, o Gringo, agente de pastoral e pre­sidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Conceição do Araguaia, PA;
• No dia 21 de julho, Wilson de Souza Pinheiro, liderança sindical em Basileia, AC;
• No dia 15 de agosto, José Francisco dos Santos, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Correntes, PE.

Há 30 anos, em 1985, foram martirizados:
• No dia 28 de abril, irmã Cleusa Carolina Rody Coelho, religiosa agostiniana, defensora dos povos indígenas, em Lábrea, AM;
• No dia 24 de julho, Pe. Ezequiel Ramin, defensor dos “posseiros”, em Cacoal, RO;
• No dia 23 de outubro, Nativo da Natividade, líder sindical, em Carmo do Rio Verde, GO
• No dia18 de dezembro, João Canuto, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Rio Maria, PA.

Há 25 anos, em 1990, foram martirizados:
• No dia 22 de abril. Paulo e José Canuto, filhos de João Canuto, em Rio Maria, PA

Há 20 anos, em 1995:
• No dia 9 de agosto, na Fazenda Santa Elina, em Corumbiara, RO, foram as­sassinados nove trabalhadores, inclusive uma menina de sete anos, no que foi chamado de Massacre de Corumbiara.

Há 10 anos, em 2005, foi martirizada:
• No dia 12 de fevereiro, Irmã Dorothy Stang, agente da CPT, em Anapu, PA.

“A CPT não é apenas uma Comissão Pastoral da Terra. A CPT é, sobretudo e fundamentalmente, uma Comissão Pastoral da Vida. Os caminhos abertos pela CPT ainda não estão plenamente decifrados. Nós ainda não conhecemos todas as implicações que a fundação da CPT teve, tem e ainda terá na história social de nosso país. Não só na história das classes trabalhadoras rurais, mas também no conjunto da história social, ainda, até por implicação, na história do Estado e na história das classes dominantes. O caminho não está plenamente percorrido. Por isso nós podemos dizer que a trajetória desse sol está apenas no começo. E o sol ainda não se pôs.” (José de Souza Martins, 1997)

Gostou dessa informação?
Quer contribuir para que o trabalho da CPT e a luta dos povos do campo, das águas e das florestas continue? 

Clique AQUI e veja como contribuir 

Fonte: CPT Nacional

Campanha Permanente de Solidariedade


Aos Amigos, Amigas e aos que acreditam nos trabalhos da CPT

“Dai, e vos será dado; será derramada no vosso regaço uma boa medida, calcada, sacudida, transbordante, pois com a medida com que medirdes sereis medidos também”. (Lc 6, 38)

A CPT, preocupada com sua sustentabilidade político-pastoral e financeira, deliberou em seu Conselho Nacional o lançamento de uma Campanha Permanente de Solidariedade.  A contribuição daqueles e daquelas que comungam dos mesmos ideais de luta e transformação política, social e pastoral, poderão ajudar para que o trabalho realizado junto aos trabalhadores e trabalhadoras rurais há 36 anos, possa ter continuidade. Além disso, essa ação visa ser um instrumento que contribua no exercício solidário e alternativo de recursos para as futuras ações da CPT.

Sua contribuição pode ser efetuada na seguinte conta:
Banco do Brasil
Agência – 1610 – 1
C/C – 116.858-4
Comissão Pastoral da Terra
Bank Swift Code: = BRASBRRJBSA