sábado, 15 de outubro de 2011

Cinco razões para o município adotar um Plano de Segurança Alimentar e Nutricional

Parte III de uma coleção de três artigos sobre Segurança Alimentar e Nutricional, escritos por Evandro Pontel* e Irio Luiz Conti**, em comemoração, no mês de outubro, o Dia Mundial e a Semana da Alimentação.
Em setembro deste ano o Governo Federal tornou público o primeiro Plano Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional. Com esta iniciativa o Governo dá mais um passo significativo em vista da consolidação da Política e do Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, em conformidade com o Decreto 7.272/2010, que regulamenta a Lei Orgânica de Segurança Alimentar e Nutricional, Lei nº 11.346/2006.
No final de setembro concluímos um amplo processo de realização de conferências municipais, regionais, territoriais e estaduais de segurança alimentar e nutricional (SAN) em todos os estados e no Distrito Federal. No Brasil foram mais de 2.800 municípios e no Rio Grande do Sul mais de 270 municípios envolveram-se na realização de conferências municipais, nas 12 conferências regionais e na V Conferência Estadual de Segurança Alimentar e Nutricional. Em todas elas os participantes analisaram os avanços, ameaças e perspectivas para a efetivação do direito humano à alimentação adequada, bem como as condições para a implementação de Planos de SAN, como forma de concretizar a Política e o Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional.
Uma questão recorrente e inevitável que surgiu em todas as conferências de SAN foi esta: quais são mesmo as vantagens e desvantagens de se implantar a Política e o Sistema Nacional de SAN acompanhados de Planos de SAN? Como este é um tema de extrema relevância, nos atrevemos a reunir em torno de cinco argumentos as razões que justificam a importância estratégica dos municípios adotarem Planos Municipais de Segurança Alimentar e Nutricional.
O primeiro motivo é que com a inclusão da alimentação no artigo 6º da Constituição Federal e na legislação específica (Lei nº 11.346/2006 e Decreto 7.272/2010), as três esferas do Estado brasileiro (municipal, estadual e federal) assumem, de forma corresponsável, as obrigações de respeitar, proteger, promover e prover o direito humano à alimentação adequada. Hoje os titulares de direitos podem exigir seu direito à alimentação através de meios políticos, administrativos e jurídicos, e o Estado tem a obrigação de realizá-los sob pena de ser levado aos tribunais.
Um segundo argumento é que com a adoção de um Plano de SAN o município cumpre com os preceitos da legislação nacional e internacional que garantem o direito humano à alimentação adequada. O município é livre para aderir ou não ao Sistema Nacional de SAN, mas é obrigado, por lei, a adotar mecanismos que expressem um conjunto de medidas que garantem a realização do direito humano à alimentação adequada de sua população.
Uma terceira razão relaciona-se à articulação e potencialização das diversas ações e programas de SAN, que geralmente são um tanto dispersos ou isolados no interior dos órgãos de governo, em um Plano intersetorial com estratégias, objetivos e metas bem definidos. Com isso, gradualmente, quebram-se os paradigmas que ainda concebem as políticas e programas de forma linear e setorial, mediante a abertura e a reunião dos diferentes setores em torno da construção de políticas e planos intersetoriais e integrados, já que a SAN abrange as diferentes dimensões e setores das ações governamentais.
Um quarto argumento é que a adoção de um sistema e um Plano de SAN possibilita a institucionalização de programas de SAN como políticas públicas permanentes no âmbito do município. Na medida em que se tem legislação que respalda estas ações se tem mais força para garantir a destinação de recursos públicos através de dotação orçamentária específica no Plano Plurianual para esta finalidade. Além do mais, cada vez mais o acesso aos recursos públicos estaduais e federais na área de SAN estará condicionado à adesão do município ao sistema e à implementação de Planos de SAN. Ou seja, os municípios que adotarem Planos de SAN se credenciarão para acessar editais públicos e recursos adicionais para a implementação de iniciativas que garantem o direito humano à alimentação.
O quinto e último argumento é que a adoção de um Sistema e um Plano Municipal de Segurança Alimentar e Nutricional expressa uma opção política e uma visão estratégica do gestor público que aposta na SAN como um investimento público na qualidade de vida da população de seu município. Deste modo, investir em sistemas locais de SAN que envolvam desde a produção, passando pelo abastecimento, a transformação, a distribuição e o consumo é investir na prevenção da saúde e garantir que a população goze de boa qualidade de vida com soberania e segurança alimentar e nutricional.

*Evandro Pontel é Graduado em Filosofia e Teologia, professor na REDESAN/UFRGS
**Irio Luiz Conti é Mestre em Sociologia, professor na REDESAN/UFRGS, conselheiro do CONSEA Nacional e presidente da FIAN Internacional.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Alimentação adequada e saudável: direito de todos

Parte II de uma coleção de três artigos sobre Segurança Alimentar e Nutricional, escritos por Evandro Pontel* e Irio Luiz Conti**, em comemoração, no mês de outubro, o Dia Mundial e a Semana da Alimentação.

No Brasil estamos vivendo um tempo especial na área da segurança alimentar e nutricional (SAN). Acabamos de realizar conferências municipais, regionais e territoriais de segurança alimentar e nutricional que envolveram participantes de mais de 2.800 municípios brasileiros. Na sequência tivemos a realização das conferências estaduais em todos os estados e no Distrito Federal. Em breve teremos a 4ª Conferência Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, que se realizará em Salvador, na Bahia, de 7 a 10 de novembro, com previsão de reunir cerca de dois mil participantes do Brasil e do exterior. Este amplo processo de mobilização social e governamental que está envolvendo milhares de pessoas evidencia que vivemos um tempo favorável para avançarmos na efetivação do direito humano à alimentação de todas e todos os brasileiros.
Inspirados pela inclusão do direito à alimentação na Constituição Federal, em 2010, ousamos adotar nesta 4ª Conferência o tema: Alimentação adequada e saudável: direito de todos. A Conferência visa construir compromissos para efetivar o direito humano à alimentação adequada e saudável por meio da Política, do Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional e da implantação de planos de SAN, a partir de análises dos avanços, ameaças e perspectivas para a efetivação desse direito em todo território nacional.
No Brasil houve avanços significativos nos últimos anos com a implementação de diversas leis acompanhadas da implantação de vários programas e ações que garantem o direito humano à alimentação adequada. Foram criados e instalados CONSEAs e recentemente houve a realização das conferências de segurança alimentar que impulsionaram diversas iniciativas e programas nesta área. Inegavelmente, a Conferência de Salvador reconhecerá estes e tantos outros avanços que efetivamente alçaram o país como referência nacional e internacional em iniciativas de promoção de políticas públicas de segurança alimentar e nutricional, aliadas a outras políticas sociais.
Por outro lado, convivemos com ameaças como a contaminação dos alimentos decorrente do uso desregrado de agrotóxicos que causa graves problemas à saúde da população e ao meio ambiente. Desde 2008 o Brasil é o maior consumidor mundial de agrotóxicos e em 2010 a média per capita alcançou 5,2 quilos. Nenhum outro país pulveriza a quantidade de agrotóxicos que o Brasil aplica na produção de alimentos. Somente em 2010 foram vendidas 725,6 mil toneladas dessas substâncias, movimentando aproximadamente 7 bilhões de dólares na venda de produtos. Em 2009 a ANVISA coletou e analisou diversas amostras de alimentos (hortaliças e frutas) e os resultados mostraram que entre 29% e 80% das amostras possuíam dosagens acima dos limites tolerados. As irregularidades identificadas referem-se tanto à aplicação excessiva de agrotóxicos não autorizados para as devidas culturas, como também à aplicação de agrotóxicos banidos ou não permitidos em nenhuma cultura. Deste modo, ao mesmo tempo que ainda temos a falta de acesso à alimentos adequados e saudáveis temos uma grande quantidade de alimentos que chegam às nossas mesas contaminados.
As conferências municipais, territoriais e estaduais identificaram, enfaticamente, que a maioria das ameaças está relacionada a um tema que precisamos debater mais em todos os espaços: a matriz do desenvolvimento brasileiro que influi diretamente na produção, distribuição e consumo de alimentos. Atualmente coexistem dois modelos de desenvolvimento. Um se expressa pelo modelo agroexportador, caracterizado pelas grandes propriedades, monoculturas intensivas, uso intenso de agroquímicos, equipamentos e máquinas modernas, baixa utilização de mão de obra, disseminação intensiva de sementes transgênicas e uso de agrotóxicos. Este modelo gera poucos postos de trabalho, concentra terra, água e renda, acelera a degradação ambiental e deixa milhares de pessoas excluídas de seus direitos fundamentais, inclusive o direito humano à alimentação adequada e saudável. Por outro lado, se fortalece um modelo de desenvolvimento que se assenta na agricultura familiar e camponesa, constituído por unidades de produção diversificadas, geradoras de trabalho e renda, voltadas prioritariamente ao mercado interno e à produção de alimentos para o autoconsumo, à soberania e segurança alimentar e nutricional e à realização do direito humano à alimentação adequada e saudável.
Como podemos perceber, os participantes da 4ª Conferência Nacional de SAN analisarão os avanços e ameaças, mas também se debruçarão sobre os desafios que precisam ser enfrentados para que tenhamos o direito à alimentação adequada e saudável efetivado. Entre os desafios podemos citar a erradicação da desnutrição e a garantia da alimentação adequada e saudável aos 16,2 milhões de cidadãos brasileiros que ainda vivem em situação de extrema pobreza e vunerabilidade social e alimentar; a consolidação da Política e do Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, mediante a articulação de um conjunto de ações e programas que abranjam desde o acesso à terra, à água e aos recursos produtivos, até o enfrentamento dos transgênicos e agrotóxicos e a transição para a produção de alimentos baseada em unidades de produção familiares de matriz agroecológica que garantam a produção, o abastecimento e o consumo de alimentos saudáveis e; não menos importante é a adoção de medidas urgentes de reversão das taxas de excesso de peso e obesidade, aliadas com iniciativas de educação alimentar e nutricional para que a população tenha todas as condições de se alimentar de modo adequado e saudável.
Oxalá aproveitemos esta oportunidade gerada pelos processos das conferências de segurança alimentar e nutricional para discutir e implementar ações que efetivamente garantam o direito à alimentação adequada e saudável como um direito de todos e todas em cada um dos lugares onde vivemos.

*Evandro Pontel é Graduado em Filosofia e Teologia, professor na REDESAN/UFRGS
**Irio Luiz Conti é Mestre em Sociologia, professor na REDESAN/UFRGS, conselheiro do CONSEA Nacional e presidente da FIAN Internacional.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Defesa da água como bem público e direito universal marcou a 18ª Romaria das Águas


Ás 9 horas desta quarta-feira, dia 12, centenas de romeiros e romeiras saíram da Usina do Gasômetro numa procissão fluvial em direção ao estaleiro da Ilha da Pintada, onde encontraram outros barcos menores, sendo um deles o portador da imagem de Nossa Senhora Aparecida das Águas. Da ilha de volta ao Gasômetro, a imagem da Senhora das Águas conduziu romeiros e romeiras que cantavam e rezavam em diversas crenças e anunciavam o valor comum para todos, que é o cuidado com a natureza. Assim iniciou em Porto Alegre a 18ª Romaria das Águas, com o tema: "Água, bem público e direito universal"
Ao retornar para a Usina do Gasômetro, outras centenas de pessoas aguardavam a chegada da imagem e seus romeiros/as. A Senhora das Águas foi recebida num corredor humano formado pela fraternidade de pessoas de diversas religiões que se deram as mãos para acolher a imagem que denúncia abuso e o desrespeito com as águas e anuncia o cuidado ecológico da vida. Após a fraterna recepção da imagem, o largo do Gasômetro se tornou um grande templo, onde a diversidade religiosa cultural celebrou o amor e compromisso com a criação de Deus. Todas as manifestações foram unanimes em defender a Água como um bem público e direito universal. Líderes religiosos defendem que a Água nunca jamais deve ser privatizada. E que toda a população tem direito de receber em sua casa a água potável, sem ter que pagar por ela como mercadoria.
O coordenador da Associação Caminho das Águas, Irmão Antônio Cechin, falou sobre a importância de todos os romeiros e romeiras se comprometerem com a luta em defesa do serviço público e de qualidade na distribuição da Água. Entre os manifestantes, estava o ex-governador, Olívio Dutra, que também foi Ministro das Cidades e falou em defesa da Água como bem público.
O encontro contou com a presença da equipe do programa Vida no Sul, que gravou com o grupo de Antônio Gringo para a próxima edição do programa que vai ao ar no sábado às 22 horas. Após a Tribuna Ecológica, a 18ª Romaria das Águas encerrou com a Cerimônia do envio e o compromisso no Rito de purificação das Águas.
Esta foi a 18ª edição da Romaria das Águas que iniciou com a devoção de catadores nas Ilhas do Guaíba, quando encontraram junto ao "lixo" a imagem de Nossa Senhora Aparecida. A imagem estava quebrada, mas colaram, prepararam um altar, ascenderam velas e rezaram para a Mãe e Senhora das Águas que hoje reúne pessoas de diversas religiões e denominações religiosas, mas, com um único objetivo: preservar a vida que Deus criou.
O evento Romaria das Águas não ocorre em apenas um dia. Na verdade, a Romaria culmina no dia 12 de Outubro em Porto Alegre, mas a imagem da Senhora das Águas percorre diversas cidades do Estado na coleta de água das nascentes. Fazendo um roteiro de coleta, a Romaria acontece num longo processo de educação ambiental e campanha pela preservação e respeito para com as águas e o meio ambiente. A iniciativa da Romaria foi do Irmão Antônio Cechin, coordenador da Associação Caminho das Águas, que além de promover a Romaria das Águas, também é responsável pela Bicicletada Caminhos de Sepé e desenvolve um trabalho permanente com os catadores de Porto Alegre e região. A realização desta Romaria contou com o apoio de diversas entidades religiosas, como a FAUERS (Federação Afro-Umbandista e Espiritualista no Rio Grande do Sul), a Pastoral da Ecologia da CNBB Sul 3. A Romaria também teve o apoio da CORSAN e da Assembléia Legislativa, através da Comissão de Saúde e Meio Ambiente. Nos municípios onde passou a imagem e se realizou a coleta das águas, a Romaria teve o apoio de entidades locais e em muitos casos das administrações municipais.
Na Romaria deste dia 12 de outubro de 2011 se iniciou a distribuição de uma cartilha sobre o cuidado das Águas, elaborada pela Professora Maria Inês de Canoas, com o apoio do Ministério do Meio Ambiente e que continuará sendo distribuída, de modo especial para as escolas.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Preço dos alimentos: da crise à estabilidade

Parte I de uma coleção de três artigos sobre Segurança Alimentar e Nutricional, escritos por Evandro Pontel* e Irio Luiz Conti**, em comemoração, no mês de outubro, o Dia Mundial e a Semana da Alimentação.

A Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO), desde 1979, comemora no dia 16 de outubro, o Dia Mundial da Alimentação, que coincide com a data da fundação desta instituição no ano de 1945. O tema deste ano: ‘Preço dos Alimentos - da crise à estabilidade’, visa sensibilizar a sociedade e os governos para a promoção da cooperação e da solidariedade na luta contra a fome, a desnutrição e a pobreza no mundo. O tema aponta para uma questão essencial: o aumento drástico dos preços dos alimentos traz graves ameaças à segurança alimentar e nutricional, especialmente nos países em desenvolvimento, vitimando, sobretudo, a população pobre.
De acordo com o Banco Mundial, entre 2010 e 2011, o aumento dos preços de alimentos levou cerca de 70 milhões de pessoas à pobreza extrema, mantendo ao redor de 1 bilhão o número de pessoas que passam fome no mundo. Na Somália, por exemplo, a metade dos 7,5 milhões de habitantes passam fome e diariamente muitos deles morrem de fome. “Preços dos alimentos: da crise à estabilidade” foi escolhido como o tema do Dia Mundial da Alimentação deste ano para lançar luz e provocar a reflexão sobre as causas da volatilidade dos preços e a importância da adoção de medidas estruturais que alterem esta situação, que traz mais vulnerabilidade ao invés de estabilidade ao sistema alimentar global.
A insegurança alimentar e nutricional não resulta apenas da desnutrição por escassez ou falta de alimentos. Há também um aumento de várias doenças decorrentes de produtos tóxicos e agrotóxicos em alimentos consumidos no cotidiano, além das altas taxas de sobrepeso e obesidade que preocupam e requerem medidas consistentes de reversão a curto e médio prazos. Os indicadores mostram que no mundo convive um número crescente de vítimas de ambas as formas de insegurança alimentar e nutricional. Isso tem estreita relacão com o modelo de produção agrícola, baseado no agronegócio, que concentra terra, renda, tecnologias, insumos, patentes das sementes e medicamentos. Ou seja, as cinco ou seis principais empresas multinacionais que produzem e controlam as sementes transgênicas, os agrotóxicos e agroquímicos nocivos à saúde humana são as mesmas que controlam a indústria de medicamentos para “curar” os efeitos de seus danos, alimentando este círculo vicioso.
As flutuações dos preços são uma característica dos mercados agrícolas que funcionam baseados em sua própria lógica, sob o imperativo do capital e do lucro. Quando estes são ampliados, tornam-se imprevisíveis – voláteis e controlados pelas bolsas de mercadorias - adquirem um efeito negativo para a segurança alimentar e nutricional de agricultores produtores e consumidores de nações inteiras. Os alimentos deixam de cumprir sua função primordial - que é de alimentar gente - e tornam-se simples mercadorias ou commodities para serem especulados nas bolsas de valores. Desde 2007, os mercados globais sofreram constantes oscilações nos preços dos alimentos básicos. No verão de 2008 eles atingiram níveis não observados desde há 30 anos, seguidos de uma leve queda e de crescimento nos próximos meses. Entre 2010 e 2011, em alguns países o aumento dos preços atingiu, em média 33%. Atualmente, na média, os preços dos alimentos permanecem elevados e a volatilidade tende a continuar, especialmente porque a maior parte dos países em desenvolvimento não possuem sistemas públicos e mecanismos de regulação de preços, nem políticas fortes de estímulo à produção e ao abastecimento alimentar para enfrentar as oscilações do mercado.
O mundo vive atualmente sob a pressão e a confluência das crises econômica, alimentar, climática e energética. Estas crises requerem discussões que apontem soluções articuladas entre si, com alternativas de soberania e segurança alimentar e nutricional que respeitem a realidade e as especificidades de cada povo e região. Neste contexto inserem-se os observatórios, fóruns e redes locais, nacionais e internacionais em torno de iniciativas que denunciam as distorções do sistema alimentar e pressionam os Estados a adotarem medidas internas, mas também de cooperação internacional que visem soluções locais e mundiais de garantia dos direitos, especialmente do direito humano à alimentação.
Portanto, aproveitemos a semana e o Dia Mundial da Alimentação para refletir em nossas casas, ambientes de trabalho, círculos de relações e organizações para estimular debates proativos sobre a importância de fazermos a nossa parte nas mobilizações e lutas locais e mundiais pela efetivação do direito humano à alimentação adequada e saudável como um direito humano e um requisito fundamental para viver com dignidade.

*Evandro Pontel é Graduado em Filosofia e Teologia, professor na REDESAN/UFRGS
**Irio Luiz Conti é Mestre em Sociologia, professor na REDESAN/UFRGS, conselheiro do CONSEA Nacional e presidente da FIAN Internacional.

Pe. Agostinho, fundador da Pastoral Operária

Padre Agostinho (foto: IHU Unisinos)
Faleceu no final da tarde dessa quinta-feira, dia 6, o fundador da Pastoral Operária, Padre Agostinho Pretto, aos 87 anos. Agostinho Pretto nasceu em 28 de março de 1924, na cidade de Encantado, no Rio Grande do Sul. Foi ordenado padre em 30 de novembro de 1953.
Padre Agostinho foi uma das principais lideranças da Juventude Operária Católica, sendo, na década de 1960, Assessor Nacional e depois Latinoamericano da JOC. Em 1970, foi preso pela ditadura militar, juntamente com outros militantes da JOC. Estas prisões levaram a Igreja Católica, em todo o Brasil para uma linha de crítica e de oposição à ditadura.
Em 1974, Padre Agostinho Pretto vem para Nova Iguaçu, trabalhar com Dom Adriano Hipólito, de quem se tornou grande amigo e colaborador. Agostinho fundou a Pastoral Operária e exerceu durante muitos anos a coordenação nacional do movimento. Foi fundador também da Associação Nacional de Presbíteros, sendo o primeiro presidente da instituição. Durante mais de 20 anos foi o pároco da Catedral de Santo Antonio.
Padre Agostinho era pároco da Paróquia São José Operário, no bairro Califórnia.
Lutador, visionário, solidário, humanista, libertador, incansável, corajoso, sonhador. Padre Agostinho Pretto esteve presente nas grandes conquistas do povo trabalhador da Baixada Fluminense, do Brasil e da América Latina. Estará sempre presente nos sonhos e na perseverança daqueles que lutam por mundo diferente, possível e necessário.

Nota da Pastoral Operária:
Pe. Agostinho Pretto, referência na luta dos Trabalhadores e das Trabalhadoras todo Brasil. A história de Pe. Agostinho se confunde com a história da Pastoral Operária. Ordenado padre em 30 de novembro de 1953, Pe. Agostinho foi convidado a organizar a Juventude Operária Católica (JOC) no RS. Dez anos depois, em 1963 mudou-se para o Rio de Janeiro onde passou a trabalhar como assistente eclesiástico nacional da JOC.
Com o golpe militar de 64, a ditadura passou a perseguir os setores progressistas da Igreja Católica. Em 1970, as sedes da JOC e demais pastorais sociais foram lacradas pela polícia em todo o Brasil, tendo vários de seus dirigentes e assistentes eclesiásticos presos e torturados, entre eles Pe. Agostinho.
No final dos anos 70, o movimento operário se rearticula no Brasil e inicia-se o trabalho de organização da Pastoral Operária, especialmente na região sudeste. Pe. Agostinho compreende o papel histórico da Pastoral e não mediu esforços para organiza-la em todo o Brasil.
Pe. Agostinho é uma referência de amor pela causa, que deve ser seguido por todos que acreditam e buscam a transformação social.
Pastoral Operária

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

É tempo de plantar e resistir!

Visita às famílias que preservam as sementes com carinho
por Oldi Helena Jantsch*

A alegria e a tranqüilidade das famílias que preservam a Biodiversidade, pois tem alimentos garantidos, com qualidade e segurança alimentar.
Não são dependentes de empresas que vem mandar no que eles tem que fazer ou não fazer.
O grande saber destes camponeses e camponesas que sabem observar atentamente todas as coisas da natureza como, sol, lua, água, terra e plantas. Conhecimento milenar. Também o aproveitamento dos potenciais da propriedade.
Me preocupo por que este saber está ameaçado! Ameaçado pelas sementes transgênicas que estão entrando de cheio em muitas regiões, especialmente o milho. Quem vai assegurar o direito que estes camponeses tem de continuar plantando suas sementes crioulas sem contaminação?
Por isso digo que nossa luta em defesa das sementes crioulas é uma luta árdua e da qual não podemos arredar o pé. Uma coisa de suma importância é garantir a continuidade, ou seja, jovens assumindo o trabalho da preservação e multiplicação das sementes crioulas e agregando renda. Fazer como diz o professor Rubens Nodari, “ligar sementes crioulas com comida, daí teremos sabor e nutrição”.

*Oldi Helena Jantsch (Tiririca) é Campesina atuante na Pastoral da Terra (CPT) da Diocese de Santa Cruz do Sul-RS.
Outubro de 2011

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Diocese Missioneira no espírito da 35ª Romaria da Terra

Foto de Germano Schüür
No compromisso de sediar a 35ª Romaria da Terra, a Diocese de Santo Ângelo, a igreja missioneirajá vem desde o ano passado se preparando e mobilizando paróquias, comunidades, municípios, sindicatos e diversas entidades, organizações sociais e movimentos populares para viver intensamente o espírito da Romaria e bem acolher os romeiros e romeiras.
O bispo diocesano, Dom José Clemente Weber, já registrou sua acolhida, que está no jornal da CPT-RS e reproduzida aqui no blog:

BEM-VINDOS E BEM-VINDAS À DIOCESE DE SANTO ÂNGELO
A Diocese de Santo Ângelo, no ano de celebração de seu Jubileu de Ouro, acolhe a realização da 35ª Romaria da Terra. Será uma ocasião marcante de reunir o Povo de Deus do chão sagrado desse Rio Grande de São Pedro para celebrar sua fé e seu trabalho na terra.
Ao sediar pela quarta vez a Romaria da Terra a Diocese missioneira quer expressar vivamente seu comprometimento firme e vigoroso com essa iniciativa das Igrejas do RS. A caminhada de preparação, a disposição de acolhida aos romeiros, os esforços na realização da Romaria constituem expressivos jeitos de participação do Povo de Deus de nossa Diocese jubilar.
A 35ª Romaria da Terra convoca-nos a um esforço de reflexão sobre questões fundamentais que afetam a vida dos trabalhadores e das trabalhadoras da terra. O lema escolhido – Agricultura familiar camponesa: vida com saúde – faz um anúncio claro da temática em jogo.
Tomar consciência das dificuldades enfrentadas por quem trabalha na agricultura familiar; celebrar as conquistas e os projetos representados por essa iniciativa popular; assumir o compromisso de fortalecer essa perspectiva de vida; sinalizar tais projetos como caminhos de vida com saúde constituem propósitos da celebração da 35ª Romaria da Terra.
Que a participação nessa marcante celebração represente um significativo reforço na luta por uma sustentável agricultura familiar camponesa, revigore as nossas disposições na caminhada de libertação de todas as opressões, agregue consistência aos projetos de caráter popular para assegurar vida com saúde a todo o povo.
Que o Deus da paz seja conosco nessa travessia.
D. José Clemente Weber
Bispo diocesano

Vista Aérea Matriz Ascensão do Senhor - Santo Cristo/RS
Da mesma forma, o padre Eugênio João Hartmann, pároco da Paróquia Ascensão do Senhor, que vai sediar 35ª Romaria da Terra, também acolhe romeiros e romeiras e mobiliza suas comunidades para preparar a Romaria que acontecerá em Santo Cristo no dia 21 de fevereiro de 2012. Confira a mensagem de acolhida publicada no jornal da CPT.

Paróquia Ascensão do Senhor se alegra em acolher a 35ª Romaria da Terra
A Paróquia Ascensão do Senhor, formada por 40 comunidades (33 rurais e 7 urbanas), sente-se agraciada em acolher os romeiros da Terra das Dioceses de nosso Estado, no dia do Carnaval de 2012. E prepara, com muita dedicação, o espaço de encontro, celebração e convívio fraterno das pessoas comprometidas com essa causa.
O povo de nossa região constituiu sua história com a força da fé e com a marca da solidariedade. O município de Santo Cristo representa um expressivo exemplo dessa tradição. Enraizada nessa história, a Paróquia Ascensão do Senhor, ao completar 90 anos de fundação, manifesta sua contribuição nessa caminhada: organiza comunidades de fé, apoia iniciativas populares em defesa da vida e incentiva o fortalecimento da agricultura familiar.
Em tempo recente, nosso povo foi atingido por situações difíceis. Fortes intempéries climáticas provocaram significativos estragos em vários lugares do município. No final de semana do carnaval de 2011, famílias da comunidade de Linha Salto sofreram duro golpe com trágico acidente que ceifou a vida de mais de duas dezenas de pessoas. Nessas oportunidades novamente a fé e a solidariedade de nosso povo fizeram valer sua força a tais gestos são sinais a apontar para o grande abraço de homens e mulheres que buscam na união e na cooperação a esperança de melhores dias no campo e na cidade.
Queremos contribuir para que a 35ª Romaria da Terra se torne um espaço onde as comunidades do Rio Grande do Sul possam tornar públicos os seus sofrimentos, suas necessidades, seus sonhos e esperanças, guiados pelo espírito de Deus, em busca de alternativas que tornem a terra respeitada e amada.
Sejam bem-vindos irmãos e irmãs romeiros e romeiras!
Pe. Eugênio João Hartmann - Pároco